Mês: agosto 2013

Meu Amor que Te Foste sem Te Ver

 

 

Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar

ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar

para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é querer
ao fado que só dá para se dar

por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.

Agostinho da Silva, in ‘Poemas’

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Vendaval

 

 

Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração…
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga, in ‘Diário (1942)’

O Maior Bem

 

 

Este querer-te bem sem me quereres, 
Este sofrer por ti constantemente, 
Andar atrás de ti sem tu me veres 
Faria piedade a toda a gente. 

Mesmo a beijar-me a tua boca mente… 
Quantos sangrentos beijos de mulheres 
Pousa na minha a tua boca ardente, 
E quanto engano nos seus vãos dizeres!… 

Mas que me importa a mim que me não queiras, 
Se esta pena, esta dor, estas canseiras, 
Este mísero pungir, árduo e profundo, 

Do teu frio desamor, dos teus desdéns, 
É, na vida, o mais alto dos meus bens? 
É tudo quanto eu tenho neste mundo? 

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

O Primeiro de Todos os Meus Sonhos

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio:em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem(bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou:e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer

E. E. Cummings, in “livrodepoemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Paisagem Única

 

 

Olhas-me tu: e nos teus olhos vejo 
Que eu sou apenas quem se vê: assim 
Tu tanto me entregaste ao teu desejo 
Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim. 

Em ti, que bem meu corpo se acomoda! 
Ah! quanto amor por os teus olhos arde! 
Contigo sou? — perco a paisagem toda… 
Longe de ti? — sou como um dobre à tarde… 

Adeuses aos casais dessas Marias 
Em cuja graça o meu olhar flutua, 
Tudo o que amei ao teu amor o entrego. 

Choupos com ar de velhas Senhorias, 
Castelo moiro donde nasce a Lua, 
E apenas tu, a tudo o mais sou cego. 

Afonso Duarte, in “Ritual do Amor”

Um Pouco Mais de Nós

 

 

Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

José Jorge Letria

Vive sem Horas

 

 

Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Estás Só

 

 

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge. 
Mas finge sem fingimento. 
Nada ‘speres que em ti já não exista, 
Cada um consigo é triste. 
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, 
Sorte se a sorte é dada. 

Ricardo Reis, in “Odes” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Quer Pouco: Terás Tudo

 

 

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Nenhuma outra Viajará pela Sombra Comigo

 

 

Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono. 
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora. 
Gira a noite em suas rodas invisíveis 
e ao meu lado és pura como o âmbar adormecido. 

Nenhuma outra, amor, dormirá com meus sonhos. 
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo. 
Nenhuma outra viajará pela sombra comigo, 
apenas tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua. 

Já tuas mãos abriram os punhos delicados 
e deixaram cair suaves signos sem rumo, 
teus olhos fecharam-se como duas asas cinzentas, 

enquanto eu sigo a água que levas e me leva: 
a noite, o mundo, o vento fiam o seu destino, 
e sem ti já não sou senão apenas o teu sonho. 

Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor”

Intervalo

 

 

Quem te disse ao ouvido esse segredo 
Que raras deusas têm escutado — 
Aquele amor cheio de crença e medo 
Que é verdadeiro só se é segredado?… 
Quem te disse tão cedo? 

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo. 
Não foi um outro, porque não sabia. 
Mas quem roçou da testa teu cabelo 
E te disse ao ouvido o que sentia? 
Seria alguém, seria? 

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei? 
Foi só qualquer ciúme meu de ti 
Que o supôs dito, porque o não direi, 
Que o supôs feito, porque o só fingi 
Em sonhos que nem sei? 

Seja o que for, quem foi que levemente, 
A teu ouvido vagamente atento, 
Te falou desse amor em mim presente 
Mas que não passa do meu pensamento 
Que anseia e que não sente? 

Foi um desejo que, sem corpo ou boca, 
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse 
A frase eterna, imerecida e louca — 
A que as deusas esperam da ledice 
Com que o Olimpo se apouca. 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Dorme Enquanto Eu Velo…

 

 

Dorme enquanto eu velo… 
Deixa-me sonhar… 
Nada em mim é risonho. 
Quero-te para sonho, 
Não para te amar. 

A tua carne calma 
É fria em meu querer. 
Os meus desejos são cansaços. 
Nem quero ter nos braços 
Meu sonho do teu ser. 

Dorme, dorme, dorme, 
Vaga em teu sorrir… 
Sonho-te tão atento 
Que o sonho é encantamento 
E eu sonho sem sentir. 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

O que Me Dói não É

 

 

O que me dói não é 
O que há no coração 
Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão… 

São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor. 

São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma. 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Interrogação

 

 

Onde é que está essa mulher fadada, 
Que o meu sonho criou num desvario, 
Acaso existe, acaso foi criada, 
Ou vive apenas porque eu a crio? 

Onde é que vive essa mulher sonhada, 
Da minha mesa o vinho e o loiro trigo, 
Acaso morta jaz desfeita em nada? 
Acaso, assim, há-de vir ter comigo? 

Onde é que existe essa mulher que um dia 
Eu me pus a chamar e não me ouviu, 
Onde é que passa oculta a sua vida, 
Acaso nunca essa mulher me viu? 

Acaso, às vezes penso, essa mulher 
Traz em sua alma algum poder oculto, 
Para que nunca, ou uma vez sequer, 
Caísse em mim a sombra do seu vulto? 

Acaso nunca essa mulher que eu sonho, 
Há-de vir abraçar-se ao meu desejo, 
Pondo em mim esse amor que nela eu ponho, 
Acaso nunca me dará um beijo? 

Acaso nunca essa mulher que eu amo, 
Como se pode amar com mais loucura, 
Há-de vir até mim quando eu a chamo, 
Para me dar um pouco de ternura? 

Acaso nunca essa mulher dilecta 
Enxugará meus olhos ao sol-pôr, 
E trará ao meu sonho de poeta 
Um bocadinho do seu grande amor? 

Acaso nunca essa mulher que é alma, 
Há-de trazer ao meu viver incerto 
Um quase nada de ternura e calma, 
Para que eu veja Deus já de mais perto? 

Acaso nunca essa mulher essência, 
Perfeita como as santas dos vitrais, 
Há-de vir embalar minha existência? 
Acaso nunca ela há-de vir, Jamais? 

Alfredo Brochado, in “Bosque Sagrado”