Mês: setembro 2013

The Six Parts Seven – Confusing Possibilities

Espera…

Não me digas adeus, ó sombra amiga, 
Abranda mais o ritmo dos teus passos; 
Sente o perfume da paixão antiga, 
Dos nossos bons e cândidos abraços! 

Sou a dona dos místicos cansaços, 
A fantástica e estranha rapariga 
Que um dia ficou presa nos teus braços… 
Não vás ainda embora, ó sombra amiga! 

Teu amor fez de mim um lago triste: 
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste, 
Quanta canção de ondinas lá no fundo! 

Espera… espera… ó minha sombra amada… 
Vê que pra além de mim já não há nada 
E nunca mais me encontras neste mundo!… 

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor, 
A tua amiga só, já que não queres 
Que pelo teu amor seja a melhor, 
A mais triste de todas as mulheres. 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor 
O que me importa a mim?! O que quiseres 
É sempre um sonho bom! Seja o que for, 
Bendito sejas tu por mo dizeres! 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho … 
Como se os dois nascêssemos irmãos, 
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho … 

Beija-mas bem! … Que fantasia louca 
Guardar assim, fechados, nestas mãos 
Os beijos que sonhei prà minha boca! … 

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

Em Busca do Amor

O meu Destino disse-me a chorar: 
“Pela estrada da Vida vai andando, 
E, aos que vires passar, interrogando 
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.” 

Fui pela estrada a rir e a cantar, 
As contas do meu sonho desfilando … 
E noite e dia, à chuva e ao luar, 
Fui sempre caminhando e perguntando … 

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, 
Viste o Amor acaso em teu caminho?” 
E o velho estremeceu … olhou … e riu … 

Agora pela estrada, já cansados, 
Voltam todos pra trás desanimados … 
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! …” 

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

Tão Cedo Passa Tudo quanto Passa

Tão cedo passa tudo quanto passa! 
Morre tão jovem ante os deuses quanto 
Morre! Tudo é tão pouco! 
Nada se sabe, tudo se imagina. 
Circunda-te de rosas, ama, bebe 
E cala. O mais é nada. 

Ricardo Reis, in “Odes” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Noturno

I.

Porque o amor não entende
que tudo quer passar,
nunca, nunca consente,
a nada o seu lugar.

Planta presa, de alpendre,
sacudindo no ar
braços impenitentes,
tenazes, em lugar

de aceitar que não prende
nada, o amor quer dar
apaixonadamente
laços à luz solar

e é noite de repente.

II.

Se ainda te iluminar
com um olhar novamente,
sei que não vais estar
tão perto; a alma entende,

o corpo quer gritar!
Porque o olhar apreende
mais do que alcança dar,
à distância, na mente,

de que vale um olhar
com a noite pela frente?
Essa noite que tende
a unir e separar

inapelavelmente…

Bruno Tolentino

Soneto dos Vinte Anos

Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

Lêdo Ivo

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. 
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. 
                   (Enlacemos as mãos.) 

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida 
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, 
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, 
                   Mais longe que os deuses. 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. 
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. 
Mais vale saber passar silenciosamente 
                   E sem desassosegos grandes. 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, 
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, 
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, 
                   E sempre iria ter ao mar. 

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, 
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, 
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro 
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o. 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as 
No colo, e que o seu perfume suavize o momento — 
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, 
                   Pagãos inocentes da decadência. 

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois 
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, 
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos 
                   Nem fomos mais do que crianças. 

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, 
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. 
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, 
                   Pagã triste e com flores no regaço. 

Ricardo Reis, in “Odes” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Quando o Meu Amor Vem Ter Comigo

quando o meu amor vem ter comigo é 
um pouco como música,um 
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo 
laranja) 
                     contra o silêncio,ou a escuridão…. 

a vinda do meu amor emite 
um maravilhoso odor no meu pensamento, 

devias ver quando a encontro 
como a minha menor pulsação se torna menos. 
E então toda a beleza dela é um torno 

cujos quietos lábios me assassinam subitamente, 

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo 
subitamente luminoso e preciso 

—e então somos Eu e Ela…. 

o que é isso que o realejo toca 

E. E. Cummings, in “livrodepoemas” 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas 
aves que são os segredos da vida 
o que quer que cantem é melhor do que conhecer 
e se os homens não as ouvem estão velhos 

que o meu pensamento caminhe pelo faminto 
e destemido e sedento e servil 
e mesmo que seja domingo que eu me engane 
pois sempre que os homens têm razão não são jovens 

e que eu não faça nada de útil 
e te ame muito mais do que verdadeiramente 
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse 
chamar a si todo o céu com um sorriso 

E. E. Cummings, in “livrodepoemas” 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente
e me escutas de longe; minha voz não te toca.
É como se tivessem esses teus olhos voado,
como se houvesse um beijo lacrado a tua boca.

Como as coisas estão repletas de minha alma,
repleta de minha alma, das coisas te irradias.
Borboleta de sonho, és igual minha alma,
e te assemelhas à palavra melancolia.

Gosto quando te calas e estás como distante.
Como se te queixasses, borboleta em arrulho.
E me escutas de longe. Minha voz não te alcança.
Deixa-me que me cale com teu silêncio puro.

Deixa-me que te fale também com teu silêncio 
claro qual uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo.

Gosto quando te calas porque está como ausente.
Distante e triste como se tivesse morrido.
Uma palavra então e um só sorriso bastam.
E estou alegre, alegre por não ter sido isso.

 

Pablo Neruda, In Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, 1924

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles, in ‘Canções’

Quero-te Apenas Porque a Ti Eu Quero

Não te quero senão porque te quero 
e de querer-te a não querer-te chego 
e de esperar-te quando não te espero 
passa meu coração do frio ao fogo. 

Quero-te apenas porque a ti eu quero, 
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico, 
e a medida do meu amor viajante 
é não ver-te e amar-te como um cego. 

Consumirá talvez a luz de Janeiro, 
o seu raio cruel, meu coração inteiro, 
roubando-me a chave do sossego. 

Nesta história apenas eu morro 
e morrerei de amor porque te quero, 
porque te quero, amor, a sangue e fogo. 

Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor”

Saudade

Ter saudade 
é vaga disforme de um corpo. 
Ter saudade 
é pássaro que aparece e se apaga 
erguido de confusão 
na angústia, teste dado à natureza 
bruxuleante dentro de mim. 
Ter saudade 
é fingir qualquer coisa que inquieta, 
levantada, desenterrada do crivo da memória. 
Por vezes quando o tempo por ela passa 
não passa o tempo da saudade, 
estátua rígida dum destino anoitecido, 
passa um nada meio acontecido. 
Saudade, 
é filha da alma do mundo 
que de tanto ser outro 
sou eu já. 
Saudade, 
porque viajas cansada 
em horas dentro de mim? 
Saudade 
que vieste até à última força desta linha, 
brumosa da eterna caminhada. 
Sempre que vieres 
sem avisares 
leva-me contigo 
para que a paz volte 
à memória de meu corpo 
como o rio que passa 
no tempo final da minha natureza. 

Carlos Melo Santos, in “Lavra de Amor”