Porque Descrês, Mulher, do Amor, da Vida?

 

Porque descrês, mulher, do amor, da vida? 
Porque esse Hermon transformas em Calvario? 
Porque deixas que, aos poucos, do sudario 
Te aperte o seio a dobra humedecida? 

Que visão te fugio, que assim perdida 
Buscas em vão n’este ermo solitario? 
Que signo obscuro de cruel fadario 
Te faz trazer a fronte ao chão pendida? 

Nenhum! intacto o bem em ti assiste: 
Deus, em penhor, te deu a formosura; 
Bençãos te manda o céo em cada hora. 

E descrês do viver?… E eu, pobre e triste, 
Que só no teu olhar leio a ventura, 
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora? 

Antero de Quental, in ‘Sonetos’

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