Soneto

Não pode Amor por mais que as falas mude 
exprimir quanto pesa ou quanto mede. 
Se acaso a comoção falar concede 
é tão mesquinho o tom que o desilude. 

Busca no rosto a cor que mais o ajude, 
magoado parecer aos olhos pede, 
pois quando a fala a tudo o mais excede 
não pode ser Amor com tal virtude. 

Também eu das palavras me arreceio, 
também sofro do mal sem saber onde 
busque a expressão maior do meu anseio. 

E acaso perde, o Amor que a fala esconde, 
em verdade, em beleza, em doce enleio? 
Olha bem os meus olhos, e responde. 

António Gedeão, in “Poesias Completas”

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