Mês: novembro 2013

Followed by Ghosts – Still,here

Quando agora me sorriste

Quando agora me sorriste
Foi de contente de eu vir,
Ou porque me achaste triste,
Ou já estavas a sorrir?

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Eu te pedi duas vezes

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Duas vezes te falei

Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Duas horas vão passadas

Duas horas vão passadas
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Duas horas te esperei / Dois anos te esperaria

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Duas horas te esperei / Duas mais te esperaria.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei…
Algum dia há-de ser dia…

Fernando Pessoa,  in Quadras ao Gosto Popular.

Poema sem título

O olhar obstruído pela angústia
Devolve ao meu íntimo
O pranto humilde e silente.
Agora, sou coisa impedida,
Árvore sem resina,
Flor sem ter nascido,
Pássaro sem pio.
O presente vem pastoso
Como o passado
Com as mesma sete cruzes pressentidas.
Morro sempre a cada hora
Sem deixar nos vãos do chão
O eco dos meus passos.
Existência formada de prenúncios,
De horrores latejando no meu corpo.
Promessa recebida ao meu nascer
E ainda tão distante da chegada,
Alento tão suave ao pensamento
E ainda tão longe do momento.
Fui
Sombra à procura de equilíbrio
Encontro no confuso desencontro
Sem chegar à irrealidade do que sou.
Além da solidão acordada
Vivo o sono que antecede a aurora,
Além da voz que corta as trevas
Ouço a canção das promessas.
Fui Coisa em quietude temporal
Pairando no cimo imóvel
Das frias montanhas intocáveis.

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Paisagem

Restam nos meus olhos 
Séculos de planícies áridas 
E o vento ríspido que trouxe as lamentações 
Das sombras agitadas 
Sobre os pântanos desconhecidos 
Distantes estão os caminhos 
Onde eu encontraria a suprema fraqueza 
Para vergar os meus joelhos 
E deitar no pó a minha boca moribunda 
Invisíveis estão as estrelas 
Que me levariam a contemplar os céus abençoados. 
E só espaços sem medida 
Onde a música da noite 
É livre sobre os pensamentos em sono. 
Desconhecida para mim a praia onde eu me deitaria 
De olhos cerrados e sentiria 
O último movimento da onda 
Balançar os meus pés 
Como as algas sem direção. 
Como os detritos rejeitados pela pureza do mar. 
Restam dentro da minha sombra 
Fragmentos de agitações de outras vidas 
Plantadas no meu grito de revolta 
Que eu não libertarei 
Até que no deserto universal 
A flor de um cardo movimente 
A paisagem silenciosa. 
 
Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

Poema Natural

Abro os olhos, não vi nada 
Fecho os olhos, já vi tudo. 
O meu mundo é muito grande 
E tudo que penso acontece. 
Aquela nuvem lá em cima? 
Eu estou lá, 
Ela sou eu. 
Ontem com aquele calor 
Eu subi, me condensei 
E, se o calor aumentar, choverá e cairei. 
Abro os olhos, vejo um mar, 
Fecho os olhos e já sei. 
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra? 
Eu estou lá, 
Ela sou eu. 
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei. 
Quando a maré baixar, na areia secarei, 
Mais tarde em pó tomarei. 
Abro os olhos novamente 
E vejo a grande montanha, 
Fecho os olhos e comento: 
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo, 
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento? 
Eu estou lá, 
Ela sou eu. 
 
Adalgisa Nery, In Poemas, 1937

É assim, a música

A música é assim: pergunta, 
insiste na demorada interrogação 
– sobre o amor?, o mundo?, a vida? 
Não sabemos, e nunca 
nunca o saberemos. 
Como se nada dissesse vai 
afinal dizendo tudo. 
Assim: fluindo, ardendo até ser 
fulguração – por fim 
o branco silêncio do deserto. 
Antes porém, como sílaba trémula, 
volta a romper, ferir, 
acariciar a mais longínqua das estrelas. 
 
Eugénio de Andrade, In Os Lugares do Lume, 1998

Árvores

Sem fadiga, as árvores regressam 
ao poema. Primeiro as laranjeiras, 
a seguir entram as tílias. 
Sempre estiveram perto, incapazes 
de se afastarem dos pequenos 
olhos imensos. 
À sombra dos cavalos 
podia vê-las chegar carregadas 
do seu aroma, dos seus frutos frios. 
A tarde chegava ao fim 
mas tive tempo ainda 
de as sentir, com um sorriso, aproximar. 
 
Eugénio de AndradeIn Os Sulcos da Sede, 2001

As poucas palavras

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda. 
Só isso: o céu azul, a sombra lisa, 
o livro aberto. 
E algumas palavras. Poucas, 
ditas como por acaso. 

Eram contudo palavras de amor. 
Não propriamente ditas, 
antes adivinhadas. Ou só pressentidas. 
Como folhas verdes de passagem. 
Um verde, digamos, brilhante, 
de laranjeiras. 

Foi como se de repente chovesse: 
as folhas, quero dizer, as palavras 
brilharam. Não que fossem ditas, 
mas eram de amor, embora só adivinhadas. 
Por isso brilhavam. Como folhas 
molhadas. 

 
Eugénio de AndradeIn Os Sulcos da Sede, 2001

Amor

 
Pouso a minha mão 
na tua espádua: 
e a noite se muda 
em alvorada. 

No mar passam navios 
vagabundos: 
haverei der levar-te 
ao fim do mundo. 

Um pássaro canta 
seu canto de pássaro. 
É dia ou noite? 

Jamais saberemos. 
Luz e sombra unidas 
na eterna aliança. 

 
Lêdo Ivo, Curral de Peixe, 1995