Vontade de morrer

Não é que não me fales aos sentidos, 
À inteligência, o instinto, o coração: 
Falas demais até, e com tal suasão, 
Que para não te ouvir selo os ouvidos. 

Não é que sinta gastos e abolidos 
Força e gosto de amar, nem haja a mão, 
Na dos anos penosa sucessão, 
Desaprendido os jogos aprendidos. 

E ainda que tudo em mim murchado houvera, 
Teu olhar saberia, senão quando, 
Tudo alertar em nova primavera. 

Sem ambições de amor ou de poder, 
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando 
Com uma grande vontade de morrer. 

Manuel Bandeira, In Estrela da tarde, 1960

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