A Dádiva de Junho

No meio-dia, veio 
a saudade do paraíso 
em carne, velo e pedra 
que uma mulher me deu. 

Antes de se libertar 
das nuvens, dos pássaros 
foi corpo de moça nua 
que uma mulher me deu. 

Meu rosto ficou em êxtase 
e ocasionalmente tranqüilo. 
Imobilizou-o o riso 
que uma mulher me deu. 

Perdi minha arte poética 
na varanda deste mês. 
Orientou-me o olhar 
que uma mulher me deu. 

Sob céus azuis e brancos 
a musica me espatifou. 
Morreria sem o socorro 
que uma mulher me deu. 

Degradado me senti 
e o desamor me cobriu. 
Faltava o mudo colóquio 
que uma mulher me deu. 

Verti, na lua fantástica, 
a água do meu desespero. 
Só me curaria o amor 
que uma mulher me deu. 

Fugi na manha serena 
— minha pena! 
— trovador sensacional. 
Queria apenas as lágrimas 
que uma mulher me deu. 

Dancei sambas na Pavuna 
encostei-me aos oitizeiros 
certo da imortalidade 
que uma mulher me deu. 

Lutei contra a morte 
e me despaisei 
levando comigo as coisas 
que uma mulher me deu. 

Fui suficientemente cruel 
e desprezei em silencio. 
Faltava-me o amor ao próximo 
que uma mulher me deu. 

Rasguei todos os sonetos 
anteriores ao encontro 
pois nao tinham o rigor clássico 
que uma mulher me deu. 

Gravei seu nome tão claro 
em todas às arvores do Brasil. 
inflamava-me o civismo 
que uma mulher me deu. 

Depois sai caminhando 
em direção às estrelas. 
E na terra ficava o céu 
que uma mulher me deu. 

Lêdo Ivo, In Poesia Completa, 2004

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