A infância redimida

A alegria, crio-a agora neste poema. 

Embora seja trágica e íntima da morte 
a vida é um reino – a vida é o nosso reino 
não obstante o terror, o extase e o milagre. 

Como te sonhei, Poesia! não como te sonharam… 

Escondo-me no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos. 

Estou sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho 
porque o Anjo me segue a qualquer parte. 

Tenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia. 
Maior, porém, era a beira da praia de minha cidade 
onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto. 

Maior ainda era o mar 
diante do qual todas as tardes eu recitava poemas, 
festejando-o com os olhos rasos d′água e às vezes sorrindo de paixão, 
porque grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo. 
Ó mar de minha infância, maior que o mar de Homero. 

Brinco de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas 
e com este ar de jogral mantenho querelas com a morte. 
Depois do outro lado, há sempre um novo outro lado a conquistar-se… 
Por isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para as califórnias da vida. 
Não és senão um sonho de infância, um mar visto em palavras. 

Lêdo Ivo, In O Sinal Semafórico, 1974

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