Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos 
me cobre: guarda algumas cicatrizes, 
outras não lembra mais, e até mistura 
uns caminhos da infância a outros de agora. 

As unhas não direi que são as mesmas 
com que o seio nutriz terei vincado: 
são mais duras, mais feias e mais sujas 
— pois nem sempre de amor e entrega foi 
o chão em que plantei, colhi nem sempre. 

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos 
entrevendo paisagens, vendo coisas, 
cegando-me ante sésamos de sombra. 

A alma apanhou demais e vai pejada, 
mas vão leves as mãos cheias de nada. 

Geir Campos, In Operário do Canto, 1959

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