Mês: janeiro 2014

Desencontro (1)

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces.

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

 

Desencontro (2)

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos.

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar.

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada.

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio.

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança 
do teu vestido 
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade 
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se 
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo, 
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz 
de novo, meu amor, 
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos 
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono 

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

Destino

à ternura pouca 
me vou acostumando 
enquanto me adio 
servente de danos e enganos 

vou perdendo morada 
na súbita lentidão 
de um destino 
que me vai sendo escasso 

conheço a minha morte 
seu lugar esquivo 
seu acontecer disperso 

agora 
que mais 
me poderei vencer? 

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

Questões de tempo

Quem perguntará por mim 
quando a última passar 
com seu facão? 
Que mulher grave desfalecerá 
vendo apagados meus olhos 
na multidão? 
Que homem de bem guardará 
o adeus meu 
seco na palma da mão? 
Quem lembrará minha voz 
coral ausente 
em qualquer canção? 
Quem se pagará a herança 
inteira ou em pedaços 
do meu indivisível coração? 
E a quem a flor 
de raiz em mim 
fará os acenos do não? 

Geir Campos, In Antologia Poética, 2003

Simplicidade

Vida no vento, 
Vida na rosa, 
Vida no fogo, 
Vida na pedra, 
Vida na água, 
Vida na luz, 
Vida no pranto, 
Vida no húmus, 
Vida na vida do amigo, 
Vida no silêncio, 
Vida na angústia, 
Vida no mistério da criança, 
Vida na vida 
Cantando, cantando sempre 
Na infinita vida da morte. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Uma pedra

Tenho sempre fome desse
Lugar que nos foi espelho,
Das frutas curvadas dentro
De sua água, luz que salva,

E gravarei sobre a pedra
Lembrança de que brilhou
Um círculo, fogo ermo.
Acima é rápido o céu

Como ao voto a pedra é fechada.
Que buscávamos? Talvez
Nada, a paixão só é sonho.
Nada pedem suas mãos.

E de quem amou uma imagem,
Por mais que o olhar deseje,
Fica a voz sempre partida,
É a palavra toda cinzas.

Yves Bonnefoy, tradução: Mário Laranjeira

Escatologia

Grande diálogo será esse contigo
quando de todo recolheres
a linha dos meus dias
e eu for varar na tua face
com o meu cumprido olho de peixe
Aceita eu ser uma só palavra
e nela todo dizer-me
Talvez então eu sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia c nenhuma outra praia
para o meu coração via
Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?
Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas

Ruy Belo, In Aquele Grande Rio Eufrates

As velas da Memória

Há nos silvos que as manhãs me trazem 
chaminés que se desmoronam: 
são a infância e a praia os sonhos de partida 

Abrir esse portão junto ao vento que a vida 
aquém ou além desta me abre? 
Em que outro mundo ouvi o rouxinol 
tão leve que o voo lhe aumentava as asas? 
Onde adiava ele a morte contra os dias 
essa primeira morte? 
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz 
Que plenitude aquela: cantar 
como quem não tivesse nenhum pensamento. 

Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra 
deste mês de junho? Como te chamas tu 
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez…»? 

Quando aonde foi em que país? 
Que vento faz quebrar nas costas destes dias 
as ondas de uma antiga música que ouvida 
obriga a recuar a noite prometida 
em círculos quebrados para além das dunas 
fazendo regressar rebanhos de alegrias 
abrindo em plena tarde um espaço ao amor? 
Que morte vem matar a lábil curva da dor? 
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer? 

E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde 
chegar à boca da noite e responder 

Ruy Belo, in Aquele grande rio Eufrates 

Metamorfose

Ó homem que passas tranquilo na rua 
atrás de qualquer próximo perfume 
e chegas a casa sem incidentes 
ó homem que tens à espera de ti 
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto 
não tenhas pena de quem morre 
de árvore para árvore 
e é diferente no principio e no fim da rua 

Ruy Belo, in Aquele grande rio Eufrates 

Enterro sob o sol

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro de água o colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água

Ruy Belo, In Transporte no Tempo

Meu amor na despedida

Meu amor na despedida 
Nem uma fala me deu; 
Deitou os olhos ao chão 
Ficou a chorar mais eu. 
Demos as mãos na certeza 
De que as dávamos amando; 
Mas, ai!, aquela tristeza 
Que há sempre neste «Até quando?, 
Numa lágrima surgiu 
E pela face correu… 
Nada pudemos dizer, 
Ficou a chorar mais eu.

António Botto, In Tristes Canções de Amor