Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada

Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada, 
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio, 
Então, sozinho de mim, passageiro parado 
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti. 

Todo o passado, em que foste um momento eterno 
E como este silêncio de tudo. 
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi, 
É como estes ruídos, 
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser 
É como o nada por ser neste silêncio noturno. 

Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem, 
Quantos amei ou conheci, 
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram 
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa; 
Ou um […] assustado e mudo, 
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite 
Branco e negro de campas e […] e de luar alheio 
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti. 

Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa.

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