Sofrer

Sofrer não é sentir fisicamente um mal 
Em que o corpo sucumbe aos poucos abatido, 
Ter, faminto e mendigo, o semblante espectral, 
Sem carinho, sem lar nem pouso definido… 

Sofrer não é carpir num catre de hospital 
Uma dor que se expande em lúgubre gemido… 
Sofrer não é vibrar nessa angústia moral 
De ver inerte e frio um ente estremecido! 

Sofrer é cultuar feliz, esperançado, 
Um sonho em pleno viço e ardor desabrochado 
E, antes de o conseguir, ter de renunciar… 

É, guardando em silêncio, uma lembrança grata, 
Na dor duma saudade imensa que maltrata, 
Amar perdidamente e não poder falar! 

Carmen Cinira, In Sensibilidade, 1935

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