Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança 
do teu vestido 
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade 
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se 
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo, 
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz 
de novo, meu amor, 
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos 
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono 

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

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