Mês: fevereiro 2014

Crippled Black Phoenix – Crossing The Bar

Timidez

Eu sei que é sempre assim, – longe dela imagino
mil versos que não fiz mas que ainda hei de compor,
perto dela, – meu Deus!… lembro mais um menino
que esquecesse a lição diante do professor…

Penso, que a minha voz terá sons de violino
enchendo os seus ouvidos de canções de amor,
– e hei de deixá-la tonta ao vinho doce e fino
dos meus beijos, no instante em que minha ela for…

Ao seu lado, no entanto, encabulado, emudeço,
e se os seus lábios frios, trêmulos, se calam,
eu, de tudo, das cousas, de mim mesmo, esqueço…

E ficamos assim, ela em silêncio… eu, mudo…
Mas meus olhos, nem sei… ah! Quantas cousas falam!
e seus olhos, seus olhos!… dizem tudo, tudo!

JG de Araujo Jorge, In Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou
Vol. I –  1a edição 1965 )

Canção da Saudade

Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor.
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.

Um desejo do estar perto
de quem está longe de nós!
Um ai! que não sei ao certo
se é suspiro ou uma voz.

Um sorriso de tristeza,
um soluço de alegria,
o suplício da incerteza
que uma esperança alivia.

Nessas três sílabas há de
caber toda uma canção:
bendita a dor da saudade
que faz bem ao coração.

Um longo olhar que se lança
numa carta ou numa flor;
saudade – irmã da Esperança;
saudade – filha do Amor.

Uma palavra tão breve,
mas tão longa de sentir!
E há tanta gente que a escreve
sem a saber traduzir.

Gosto amargo de infelizes,
foi como a chamou Garret;
coração, calado, dizes
num suspiro o que ela é.

A palavra é bem pequena
mas diz tanto, de uma vez!
Por ela valeu a pena
inventar-se o português.

Bastos Tigre

Ali

Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali é a pedra do teu lar. 
Ali é o teu, bem teu lugar. 
Ali a praça onde jogaste 
o que o destino te quis dar. 

Ali ficou tua pegada 
impressa, firme, sobre o chão. 
Ninguém a vê sob o montão 
de cinza fria e poeirada? 
Distingue-a, sim, teu coração. 

Podem talvez o vento, a neve, 
roubar a flor que tu criaste? 
Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali sentiste a vida breve. 
Ali sorriste. Ali choraste. 

Saúl Dias, in “Sangue”

Ao sol-por

Eu canto no crepúsculo… A Tristeza
recorda-me longínqua aspiração,
na qual pressinto a imagem da beleza
que os meus olhos, um dia, alcançarão…

A paisagem, na sombra, sonha e reza…
Seu vulto é de fantástica visão.
Dir-se-á que a empedernida Natureza
tem lágrimas a arder o coração.

E canto a minha mágoa; vou cantando…
E vou, saudoso e pálido, ficando
mais distante de mim, mais para além…

Nesta melancolia, que é chorar
sem lágrimas, eu vivo a meditar
no que me prende… a terra, o céu, alguém?

Teixeira de Pascoaes

Perder-me

Diz-me
minha fonte de segredo
porque a loucura me leva
por tão profundo Amor 

Diz-me
sussurra-me ao ouvido
a palavra vã
que esse doce pulsar
não me deixa ouvir

Diz-me
diz-me tu
chama meu nome
como só tu sabes
e me enganas o chamar

Diz-me
porque sonho
na penumbra do quarto
tuas carícias
tão ternas e belas
que me embalam o sonhar

Diz-me
com teus olhos doces
as palavras que me faltam
os gestos que perdi
para só em ti
me poder perder

Pedro Rodrigues de Miguel

Poema lembrado

Mas se ainda nem me sei perder, 
Como me poderei encontrar?! 
Perdi a esperança no porvir? 
O jeito de me encontrar! 
Sei lá, olhei em volta… 
Acredita, diz-me Ela 
Que é minha Lua 
Como Sol em noite escura. 
Redoma que se abriu 
No gesto doce de um beijo, 
No olhar verde da esperança. 

Gesto sentido, 
Doce carinho, encontro de mãos, 
Retrato a preto e branco 
Que se faz colorido. 

Enlevo de vida, 
Acordar de um sono sonhado 
Que me perdeu, encontrado, 
Na imensidão do Amor. 

Pedro Rodrigues de Miguel

Gosto que me confunde

Olhei-a 
Vi-lhe os olhos 
cerrados 
nos cirros 
e nimbos do sono 
Os lábios doces 
calmos 
sonholentos 
o nariz adunco 
num respirar de sono 
leve 
Os cabelos soltos 
de ouro corados 
atirados 
num gesto 
para trás 

Que doce pensar 
o meu olhar 
daquela face calma 
Sono solto! 
… e eu a olhar! 
Toquei-lhe 
de leve 
a loura guedelha 
como quem quer 
não querer acordá-la 

Que lhe vai na mente 
em tão doce pensar 
quando não se pensa 
Ao longe 
o trinar constante 
dos Nocturnos de Chopin 
confundiam-se-lhe 

Amor 
não é o toque 
seco 
do gostar 
É gostar 
desse toque de sentir 
ver o outro 
e disso gostar 

E lá continuavam 
os Nocturnos 
na tarde de luz e Sol 
na penumbra do quarto 

Gosto de a ver 
assim 
gosto dela assim 
gosto de ver dela 
assim 
E é neste gosto 
que me confunde 
que julgo encontrar 
o Amor 

Pedro Rodrigues de Miguel

Morena

Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.

JACOPO ORTIS

É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos… bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!

Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor…

Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!… perdi-me!

Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia…

Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!

Foi um sonho… não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!… ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!

Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça…

Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?

Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!

Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!

 Álvares de Azevedo
In Lira dos Vinte Anos, 1853
Terceira Parte

Página Rota

Et pourtant que le parfum d’un pur
amour est suave!

GEORGE SAND

Meu pobre coração que estremecias,
Suspira a desmaiar no peito meu:
Para enchê-lo de amor, tu bem sabias
Bastava um beijo teu!

Como o vale nas brisas se acalenta,
O triste coração no amor dormia;
Na saudade, na lua macilenta
Sequioso ar bebia!

Se nos sonhos da noite se embalava
Sem um gemido, sem um ai sequer,
E que o leite da vida ele sonhava
Num seio de mulher!

Se abriu tremendo os íntimos refolhos,
Se junto de teu seio ele tremia,
E que lia a ventura nos teus olhos,
É que deles vivia!

Via o futuro em mágicos espelhos,
Tua bela visão o enfeitiçava,
Sonhava adormecer nos teus joelhos…
Tanto enlevo sonhava!

Via nos sonhos dele a tua imagem
Que de beijos de amor o recendia…
E, de noite, nos hálitos da aragem
Teu alento sentia!

Ó pálida mulher! se negra sina
Meu berço abandonado me embalou,
Não te rias da sede peregrina
Dest’alma que te amou…

Que sonhava em teus lábios de ternura
Das noites do passado se esquecer…
Ter um leito suave de ventura…
E amor onde morrer!

Álvares de Azevedo
In Lira dos Vinte Anos, 1853
Terceira Parte

Tarde de Outono

Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
Alfred De Musset

O POETA

Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?

A SAUDADE

De um puro amor a lânguida saudade
É doce como a lágrima perdida,
Que banha no cismar um rosto virgem:
Volta o rosto ao passado e chora a vida.

O POETA

Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?…
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh’alma viveu.

A SAUDADE

Pálidos sonhos do passado morto
É doce reviver mesmo chorando:
A alma refaz-se pura. Um vento aéreo
Parece que do amor nos vai roubando.

O POETA

Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor…
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir…
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?

A SAUDADE

A casa está deserta. A parasita
Nas paredes estampa negra cor,
Os aposentos o ervaçal povoa,
A porta é franca… Entremos, trovador!

O POETA

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me mais prantos, meu Deus!
Eu quero chorar aqui…
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.

A SAUDADE

Sonha, poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo — dos amores à cantiga.

O POETA

Minh’alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança…
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava…
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver…
Tão doce, que em mim sentia
Que minh’alma se esvaía…
E eu pensava ali morrer!

A SAUDADE

É berço de mistério e d’harmonia
Seio mimoso de adorada amante:
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem;
E a vida foge ao peito… apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do poeta
Doira a amante de nova formosura!

O POETA

Que gemer! não me enganava!
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas
E as venturas choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde:
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus…
Por ela tanto chorei,
Que mancebo morrerei…
Adeus, amores, adeus!

 Álvares de Azevedo
In Lira dos Vinte Anos, 1853
Primeira Parte

 

O que eu te diria

O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos
como há depois da música, nas flores,
e no começo da noite…

O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;
minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão
sem pertencerem.

O que eu te diria tem-te esperado muito.
Por isso te sabe de cor e te perco tanto;
e dos longos diálogos que é não chegares
vais morrendo, excessiva, de ti mesma.

Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos
olharás em mim o teu rosto com os olhos brancos,
como se olhasses tua morte mais pura.

Vitor Matos e Sá

Quando

Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,

sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.

Vitor Matos e Sá

Os Rios

Os rios que eu encontro 
vão seguindo comigo. 
Rios são de água pouca, 
em que a água sempre está por um fio. 
Cortados no verão 
que faz secar todos os rios. 
Rios todos com nome 
e que abraço como a amigos. 
Uns com nome de gente, 
outros com nome de bicho, 
uns com nome de santo, 
muitos só com apelido. 
Mas todos como a gente 
que por aqui tenho visto: 
a gente cuja vida 
se interrompe quando os rios. 

João Cabral de Melo Neto