Nesta esquina do tempo é que te encontro

Nesta esquina do tempo é que te encontro, 
Ó nocturna ribeira de aguas vivas 
Onde os lírios abertos adormecem 
A mordência das horas corrosivas 

Entre as margens dos braços navegando 
Os olhos nas estrelas do teu peito, 
Dobro a esquina do tempo que ressurge 
Da corrente do corpo em que me deito 

Na secreta matriz que te modela, 
Um peixe de cristal solta delírios 
E como um outro sol paira, brilhando, 
Sobre as águas, as margens e os lírios 

José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

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