Aquilo que a gente lembra

Aquilo que a gente lembra 
Sem o querer lembrar, 
E inerte se desmembra 
Como um fumo no ar, 
É a música que a alma tem, 
É o perfume que vem, 
Vago, inútil, trazido 
Por uma brisa de agrado, 
Do fundo do que é esquecido, 
Dos jardins do passado 

Aquilo que a gente sonha 
Sem saber de sonhar, 
Aquela boca risonha 
Que nunca nos quis beijar, 
Aquela vaga ironia 

Que uns olhos tiveram um dia 
Para a nossa emoção — 
Tudo isso nos dá o agrado, 
Flores que flores são 
Nos jardins do passado 

Não sei o que fiz da vida, 
Nem o quero saber 
Se a tenho por perdida, 
Sei eu o que é perder? 
Mas tudo é música se há 
Alma onde a alma está, 
E há um vago, suave, sono, 
Um sonho morno de agrado, 
Quando regresso, dono, 
Aos jardins do passado. 

Fernando Pessoa, In Novas Poesias Inéditas, 1973 

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