Desejo

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer. 
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade, 
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver 
Amortalhado sempre à luz duma saudade! 

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco 
Se ungir da palidez sinistra do não ser, 
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco 
Sentir junto ao meu seio teu coração bater! 

Que seja a tua mão tão branda como a neve 
Que feche o meu olhar numa carícia leve 
Em doce perpassar de pétala de lis… 

Que seja a tua boca rubra como o sangue 
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!… 
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!… 

Florbela Espanca, In O Livro D′Ele, 1915-1917

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