Mês: março 2014

Saul – Strawberry

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Com o coração estranho

Com o coração estranho
Escutei essa canção
Esse mundo donde venho
E este nosso onde me tenho
Qual é a ilusão?

21-6-1909
Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa.

Posse

Lá fora
o sol passava as fronteiras
de horizontes longuínquos,
e dentro do quarto tombava
uma luz vaga…

Deitado
o teu lindo corpo espraiava-se
brando,
num abandono morno
que a luz sem arestas afagava.
Tudo em ti era uma espera
dos teus seios suaves de menina
e do teu sexo em flor.

Minhas mãos escorregaram lentas…
Tu lentamente cedias
e os olhos eram poços fundos e escuros
na noite que descia.

João José Cochofe

Canção de Alva

Nua como o amanhecer,
na madrugada fria,
que estranho encontro existe
entre o teu corpo amplo
e o romper do dia?

Friorenta e nua,
teu corpo mais amplo,
branco,
na luz confusa,
crua,
do alvorecer,
é uma visão de lua.

Quente,
pesado de sonhos,
meu corpo tem frio
só de olhar o teu.
E o longe indeciso,
pardacento,vago,
lembra o meu arrepio
do luar num lago.

João José Cochofel, In “Búzio”, 1939.

Bairro novo

Na doçura do cair da tarde
vou passando
através das ruas do bairro novo.
Este bairro
é quase desconhecido para mim.
Chego a ter a ilusão 
de que habito uma cidade diferente.

O sol bate nas vidraças.

Tudo respira uma alegria suave.

Nas janelas
há meninas debruçadas.
Estão na «idade perigosa»
e sonham.
É tão perigoso sonhar…

Fumo e distraio-me,
uma grande doçura a invadir-me.

Era tão bela a vida
se todos quisessem…

João José Cochofel, In ”Instantes”, 1937

MARIA: Amo como o amor ama.

        MARIA:
Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração…

Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.

Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (…)

Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
buscas
E encontras cinzas.

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m’o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m’o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu’rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

           FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?
          MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu’rer sentir?

Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa.

FAUSTO: Reza por mim Maria

FAUSTO:
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (…)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d’amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas…).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p’ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar… Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará… Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim… Não… Eu choro apenas de te ver
Triste e (…) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto…
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d’amor, eu não sei como, seja
Indiferença… Não… ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê…
Mas amo-te… Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não…
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te… Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te… Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor… Eu, pois, nunca amarei…
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N’alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!

Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade…
Em tudo… Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti… Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.

Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa.

A desilusão de Fausto é de três espécies:

(A desilusão de Fausto é de três espécies: 1) verifica, no facto de que Maria o ama em parte sem saber porquê e em parte por qualidades que lhe supõe e ele não tem, que o amor é coisa que não se pode querer compreender e entre o qual e ele há um abismo profundíssimo; 2) verifica, na sua incapacidade não só de compreender o amor; como até de o sentir ou, talvez melhor, de se sentir sentindo-o, que esse abismo que existe entre ele e o amor começa por ser um abismo que existe entre ele e ele próprio; 3) verifica (…))

Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa.

Tinariwen – Toumast Tincha

Walking through it
Walking in the winter
The desert
Then I see it
My beloved

Dancing through fire
Dancing through fire

(Extrato de um poema inacabado. Poema que só inacabado ficou certo)

Assim que a porta dos dias
se fechava aos nossos rostos
tu tecias versos de espuma
nas páginas da angústia
e marcando um ponto de vida
no arco-íris da nossa insónia
eu aprendia no azul dos teus olhos
outra maneira de ser

Armando Artur, In Espelho dos Dias, 1986

Não importa

Não importa esta fronteira
que em vão nos demarcam

quando a viagem prometida
ainda se anuncia

não importa este fogo
que em vão nos ateiam
quando o bago da esperança
amadurece nos nossos poros

não importa esta tempestade
que em vão nos fustiga
quando o sol antigo e claro
ainda se levanta.

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

Repara como as manhãs

fingidamente acontecem
nas nossas mãos.
O hábito das manhãs
é tão antigo e visível
como o longo e indelével rasto
deixado pelas estações.

Repara como o sol brilha,
Incólume, sobre o mar funde.

(Será longe, ainda o lugar
Do exílio?)

Armando Artur, In Estrangeiros de Nós Próprios, 1996