Desde a aurora

Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu – a terra – que te procuro. 

Eugénio de Andrade, In Obscuro Domínio, 1972

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