Poema de desintoxação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

João Cabral de Melo Neto

1 comentário

  1. Muito bacana encontrar um poema de João Cabral de Melo Neto que, na verdade, não é de João Cabral de Melo Neto. 😎

    Quer dizer: normalmente quem gosta de JCMN pensa apenas no engenheiro do verso, que repete as metáforas da faca, da pedra, daquelas ideias fixas que, sim, tem muita serventia.

    Parabéns pelo trabalho.

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