Mês: abril 2014

Neste dia de mar e nevoeiro

Neste dia de mar e nevoeiro 
É tão próximo o teu rosto 

São os longos horizontes 
Os ritmos soltos dos ventos 
E aquelas aves 
Que desde o princípio das estações 
Fizeram ninhos e emigraram 
Para que num dia inverso tu as visses 

Aquelas aves que tinham 
uma memória eterna do teu rosto 
E voam sempre dentro do teu sonho 
Como se o teu olhar as sustentasse 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Coral, 1950 

O olhar

Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.

Manoel de Barros, do livro “Poemas Rupestres”, 2004.

Carta

Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres somente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios. Talhares os teus gestos como sonho, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens nuas da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ver música a atravessar, sonâmbula, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas ao fundo doutras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem sentimentos que não temos.

Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando — nem te vendo talvez, mas talvez reparando que o luar enchera de (…) os lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impossíveis.

A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligar as duas margens escuras do rio que vai ter ao mesmo mar onde as caravelas são nossas para sempre.

Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa.

 

Biografia dos meus olhos

Estes meus olhos que um dia perceberam vagamente 
O colorido, as formas, 
Que aprenderam a beleza do voo das aves e a amplidão das campinas, 
Os meus olhos que um dia tão contentes 
Transmitiram à minha alma 
As palavras de um amor adolescente, 
Os meus olhos que mais tarde encantados 
Viram os meus braços receberem 
O que o meu ventre havia gerado. 
Estes meus olhos que choraram tantas vezes escondido, 
Que tantas vezes se afogaram no pavor 
E num medo indefinido, 
Estes olhos que um dia sorriram 
De frescura e esperança. 
Estes meus olhos cansados 
De tristezas prematuras 
Rasos de doídas lágrimas 
Sobre berços e sepulturas 
Foram os que aprenderam duramente 
O que era o pranto e a mágoa 
Na destruição do desejo da vida mais ardente. 
Estes meus olhos que agonizam agora sofridos, envelhecidos 
Se apagarão na misteriosa noite 
Com a derradeira lágrima pelos desolados e os vencidos! 

Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

Em Lilás e Cinza

Minha alma, agora, é como uma janela aberta 
para o infinito azul de uma hora de saudade: 
Todo o imenso langor da tarde em sombra a invade, 
enchendo-a de uma luz dúbia, esmaiada, incerta. 

Não sei que estranhas mãos erguem véus de abandono, 
num divino silêncio, entre minha alma e a vida, 
para ela adormecer de distância, esquecida, 
como uma flor serrôdia, às caricias do outono… 

Alceu Wamosy, In Coroa de Sonho, 1923
I Parte – Jardim Noturno

PRIMEIRA VOZ: Que forma velada

PRIMEIRA VOZ:

Que forma velada
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor…
Só o vago palor
De chama azulada

Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém…
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?

Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!

Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!

SEGUNDA [voz]:

Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (…) e a aberta?

Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago…
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.

Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.

Mar alto, não deixes
O barco voltar…
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar

6-10-1916
Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa

Soneto de Abril

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d′água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

 Lêdo Ivo, In Acontecimento do Soneto, 1948

Alcest – Souvenirs d’un autre monde

D’où je viens le temps n’existe pas,
Les secondes deviennent des heures,
Les années de courts instants sitôt envolés
Et nos mots trompeurs sont remplacés
Par la musique et les couleurs
Qui flottent comme des parfums dans l’air ambré

“N’aie crainte, à présent tout est fini
Brise les chaînes de tes peurs mortelles
Pour à jamais en être libéré
Et retrouver la quiétude passée.
N’aie crainte, à présent tout est fini
Laisse couler tes larmes une dernière fois
Pour à jamais en être libéré
Et rejoins le monde d’où tu viens”.

No entardecer da terra

No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
volver a sê-lo! … Mais frio
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa, In Poesias, 1942