PRIMEIRA VOZ: Que forma velada

PRIMEIRA VOZ:

Que forma velada
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor…
Só o vago palor
De chama azulada

Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém…
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?

Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!

Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!

SEGUNDA [voz]:

Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (…) e a aberta?

Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago…
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.

Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.

Mar alto, não deixes
O barco voltar…
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar

6-10-1916
Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa

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