Biografia dos meus olhos

Estes meus olhos que um dia perceberam vagamente 
O colorido, as formas, 
Que aprenderam a beleza do voo das aves e a amplidão das campinas, 
Os meus olhos que um dia tão contentes 
Transmitiram à minha alma 
As palavras de um amor adolescente, 
Os meus olhos que mais tarde encantados 
Viram os meus braços receberem 
O que o meu ventre havia gerado. 
Estes meus olhos que choraram tantas vezes escondido, 
Que tantas vezes se afogaram no pavor 
E num medo indefinido, 
Estes olhos que um dia sorriram 
De frescura e esperança. 
Estes meus olhos cansados 
De tristezas prematuras 
Rasos de doídas lágrimas 
Sobre berços e sepulturas 
Foram os que aprenderam duramente 
O que era o pranto e a mágoa 
Na destruição do desejo da vida mais ardente. 
Estes meus olhos que agonizam agora sofridos, envelhecidos 
Se apagarão na misteriosa noite 
Com a derradeira lágrima pelos desolados e os vencidos! 

Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s