Mês: maio 2014

Queria dizer a alguém

Queria dizer a alguém 
      Como quem já lhe falou, 
Não o que penso, nem bem 
      O que sinto, mas o que sou.

Não por palavras — até 
      Poucas palavras é vão, 
E um sorriso ou olhar é 
      Como fala a canção —,

Mas por um vago florir 
      Da alma à flor do dizer, 
Que não chegasse a abrir 
      Em voz, em símbolo, ou ser…

21 – 3 – 1928 

Fernando Pessoa, In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Farewell Poetry – All In The Full, Indomitable Light Of Hope (Part II)

Tive quem me amasse

Tive quem me amasse,
Tive quem amei.
Hoje em minha face
De quem fui corei.

Tive essa vergonha 
De ser hoje e aqui, 
O que sempre sonha 
E não sai de si,

E de recordar 
Que não posso haver 
Mais que assim sonhar 
Do que pude ser.

6 – 8 – 1934 

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Não distingo se sou eu

Não distingo se sou eu
Que estou ouvindo, ou se é
Só um som de água que é meu
Porque está aqui ao pé.

Mas o som de água persiste
Para além de quem eu sou.
Penso: sou dormente e triste.
Oiço: quem fui despertou.

 

2 – 10 – 1934 

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Tem um olhar direito e doce

Tem um olhar direito e doce, 
Um ar de rosto de confiança, 
E amará como se o amor fosse 
Uma alegria de criança…

Trouxe-me a flor por brincadeira. 
Maliciosamente vinda, 
Seu mesmo gesto era a maneira 

 
Ou talvez não e tudo mude, 
Mas, se for como as sempre iguais, 
Que o eterno desencontro ‘scude 
Minha alma contra vê-la mais.

 

2 – 12 – 1929 

Fernando Pessoa, In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Deixa que o meu olhar desça

Deixa que o meu olhar desça 
Ao fundo da tua alma; 
Que olhando-te, te conheça 
E saiba o que há sob a calma 
Do teu ser visto tão suave 
Como o voar de uma ave.

Deixa que eu olhe os teus olhos 
E os fite até os não ver 
Mas só perceber 
Uma alma à vista nascer 
E eu ver-te os sentimentos 
Nos meus atentos.

 

 

21 – 8 – 1910 Fernando Pessoa, In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Demora o olhar, demora

Demora o olhar, demora
Mais um momento em mim…
Minh’alma há muito chora
Porque um olhar assim
A fita sem ter fim

Demora o olhar, e esquece
Que demoras o olhar…
Que melhor vida ou prece
Que, mesmo sem constar
Às almas que há amar,
E à que a vida arrefece
Fica, olhar no olhar…

c.5-11-1909 

Fernando Pessoa, In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

 

Jardim

Teu corpo está ali na noite calma
Perto, e eu dou-lhe um beijo
Com o mais forte imaginar do meu desejo
E teu corpo sabe-me a alma

Mas cala-se tudo. As superfícies dos entes
Ficam apenas … Mera noite a sonhar.

Gera silêncio em luar calmo lago,
E quedam-se as florestas trevas ardentes
E a sombra de silêncios a peneirar.
O vago
Luar.

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

 

Ninguém me disse quem tu eras

Ninguém me disse quem tu eras, 
Ninguém falou de que virias. 
Vieste, e havia primaveras 
Em que só tu florias..

Não sei ainda se vieste 
Pois não distingo o sonho e a vida. 
Sei qual o bem que me trouxeste, 
Mas não me foi guarida.

Era um desejo começado, 
Era um anseio por achar. 
Só me resta do teu agrado 
O tornar-te a sonhar.

20 – 10 – 1934 

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Lábios formando

Lábios formando 
O sonho de um beijo… 
Nunca ides além 
Do mero desejo…

Tocar outra boca 
Na nossa é tristonho 
Para quem conhece 
O sabor do sonho

Invisíveis bocas 
Que nos vêm beijar 
De um céu que só existe 
No nosso sonhar…

O que dão só essas 
Nunca tirarão… 
E que no seu dá-lo 
Nunca no-lo dão…

Deixai-me sonhar
Sem eu o saber…
Ou sabendo-o sempre…
Como pude ser.

10 – 1 – 1913 
Fernando Pessoa, In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Her Name Is Calla – Pour More Oil

No sense in me lying to you.
This is gonna hurt, me more than you.
A wave of endorphins
A cold shoulder
And a mighty blow, to the back of the skull.

I’m in an aircraft out of control.
I’m in an aircraft out of control.

Pour more oil on us

Wrap your hands around my heart again,
I am home at last.