Chuva: a abensonhada

Estou sentado junto da janela olhando a chuva que cai a três dias. Que saudade me fazia o molhado tintinar do chuvisco. A terra perfumegante semelha a mulher em véspera de carícia. Há quantos anos não chovia assim? De tanto durar, a seca foi emudecendo nossa miséria. O céu olhava o sucessivo falecimento da terra, e em espelho, se via morrer. A gente se indaguava: será que ainda podemos recomeçar, será que a alegria ainda tem cabimento?

Agora, a chuva cai, cantarosa, abençoada…

 Mia Couto – Estórias Abensonhadas

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