Mês: julho 2014

Tides From Nebula – Cemetery of Frozen Ships

Amor: Ânsia que nunca chega a ser

Não sei se te amo
não sei se te abomino.
mas, que mistério
encerram teus olhos
que me inspiram vida?
diz-me, que o tempo corre …
e a vida passando.
diz-me, sibilina
que as cigarras cantam …
lá o sol reclinando.
diz-me, que as ondas
auspiciosas dos teus olhos
harmonizam-me os passos
e convidam-me a partir.
sim, diz-me o segredo
que envolve teus olhos
pois amor é esta ânsia
que nunca chega a ser!

Armando Artur, In Espelho dos Dias, 1986

Sonho Domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello In Mormaço na Floresta, 1981

Fulgor de Sonho

De tudo o que já me deu 
agradeço à vida o sonho 
da rosa que não ganhei. 

Minha mão não alcançou 
a estrela que desejei 
Seu fulgor o sonho inventa 

invisível no meu peito. 
O navio embandeirado 
que espero desde criança 

está custando a chegar. 
Não faz mal, canta o meu sonho, 
as águas que ele navega 

sabem a sal de esperança. 
Nada perdi…Como posso 
perder o que nunca tive? 

Vivo a vida do meu sonho, 
meu sonho de sonho vive. 

Thiago de Mello In Campo de milagres, 1998

As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo) 
todo feito de certezas 
tão duras como lajedos. 

Agora (o tempo é que fez) 
tenho um caminho de barro 
umedecido de dúvidas. 

Mas nele (devagar vou) 
me cresce funda a certeza 
de que vale a pena o amor 

Thiago de Mello In Mormaço na floresta, 1981

É nos Porões

Faço o poema com a mesma 
ciência e delicadeza 
com que, mãos adolescentes, 
e a imaginação nas nuvens, 
fazia o meu papagaio. 
Sempre trabalhei sozinho 
no alto porão do sobrado, 
onde as talas repousavam. 
Para urdir a luz do poema, 
preciso ir aos meus porões 
onde as palavras me esperam. 

Thiago de Mello In Campo de milagres, 1998

A Aprendizagem Amarga

Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar, perto e distante,
como o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.

Thiago de Mello In Faz escuro mas eu canto, 1966