Mês: setembro 2014

Ólafur Arnalds – 1953

É assim a música

A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade In Os Lugares do Lume

Tu és a esperança, a madrugada

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade In As Mãos e os Frutos

Somos folhas breves onde dormem

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade In As Mãos e os Frutos

Toda beleza é um sonho

Toda beleza um sonho, inda que exista.
Porque a beleza é sempre mais do que é.
Toda beleza vista
Não está de mim ao pé.
Dista de mim o que em ti vejo, mora
Onde sonho. Se existes, não o sei
Senão porque é agora
Aquilo que sonhei.
A beleza é uma música que, ouvida
Em sonhos, para a vida transbordou.
Mas não é bem a vida:
É a vida que sonhou.

22 – 4 – 1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Um só momento

Um só momento
Sem nada ter…
Um pensamento
Sem se saber…

Pouco… Um acaso
De não pensar,
Como um atraso
De sossegar…

Nada… A ligeira
Indecisão
Que fica inteira
No coração…

10 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Um momento

Um momento
Do teu olhar
Trazia qualquer pensamento…
Fez-me cismas,
Desatento.

Outro e outra
Seria
Não esta neutra
Cousa vazia,
Mas a verdade.

Sim, mas há sempre
No que se evita,
Inda que contra
Nossa vontade,
Uma esquisita
Serenidade.

11 – 6 – 1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

«Porque gastas tempo em sonhos?»

«Porque gastas tempo em sonhos?»
Em que melhor o gastar?
Sonhos, enfim, são risonhos,
E fazem-nos não pensar.

O tempo que sonho passa
Pelo teor dos meus dias
Como o sol pela vidraça.
As sombras são sempre frias.

c.10-6-1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006