Mês: outubro 2014

Corre aos meus pés o rio

Corre aos meus pés o rio.
As árvores revelam-se.
E em toda a parte há flores.
Como elas deixei vir
As horas ter comigo,
Sem sono, nem desvelo,
E deixando a natureza
Tornar-me em meu sonho.

O silêncio é dos deuses.
Passam nossas palavras,
Morrendo no ar o seu eco.
Quem nos ouvir esquece.
Só a calma e calada
Admiração das cousas,
Por nunca ter querido
Ser qualquer cousa, é tudo.

10 – 7 – 1916

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Quantas verdades achei

Quantas verdades achei!
E eram todas desiguais.
Quantas coisasa encontrei
Que nunca mais acharei
A não ser no que nunca mais!

Palavras? Não, não quero saber
Como é que pensar se diz
Ou como sentir tem ser.
Quem saiba o que não souber –
Esse, sim, será feliz.

20 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Ausência Misteriosa

Uma hora só que o teu perfil se afasta,
Um instante sequer, um só minuto
Desta casa que amo — vago luto
Envolve logo esta morada casta.

Tua presença delicada basta
Para tudo tornar claro e impoluto…
Na tua ausência, da Saudade escuto
O pranto que me prende e que me arrasta…

Secretas e sutis melancolias
Recuadas na Noite dos meus dias
Vêm para mim, lentas, se aproximando.

E em toda casa, nos objetos, erra
Um sentimento que não é da Terra
E que eu mudo e sozinho vou sonhando…

Cruz e Sousa In Faróis, 1900

Às vezes a chuva é sol

Às vezes a chuva é sol
Quando clara se desata
Em poesia dura de prata
De nuvens claras sem sol.

Então dá calma e alegria
E tanto faz o chover
Como haver luz a encher
O céu azul de alegria.

A tristeza às vezes é
Uma alegria que nasce
Sob o acaso de um disfarce,
E é isso que a vida é.

4 – 3 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Debaixo de onde altos ramos

Debaixo de onde altos ramos
Fazem grande o arvoredo
Solitariamente vamos
Num colóquio que calamos,
Cada um com seu segredo.

Falam por nós, que, calados,
Seguimos mútuos e lentos,
Os altos ramos falados
Por ventos desencontrados
Com os nossos pensamentos.

Vamos e achamos que é uma
A dupla emoção que temos.
Os ramos têm som de espuma.
O som tem ondas de bruma.
A emoção? Já a esquecemos…

25 – 8 – 1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Como um cisne

Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos,
Ó simpática Adalziza
Como um cisne, est’alma frisa,
Vagueia, paira, desliza
Sem naufragar nos escolhos
Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos.

Cruz e Sousa  In O Livro Derradeiro, 1961 

Meus esplêndidos desejos

Meus esplêndidos desejos
Emigram, como beijos,
Pelo azul espaço, em curvas,
Rasgando essas brumas turvas;
Pelo sol das primaveras,
Batendo as asas brancas,
Como, batem, quimeras…
………………………………………..
Voai, andorinhas francas!

Cruz e Sousa In O Livro Derradeiro, 1961

Teus olhos

Teus olhos — esses carinhos,
Esse casal de ilusões
Tão doces como os arminhos,
Teus olhos — esses carinhos
Parecem ser os dois ninhos
Das minhas consolações,
Teus olhos — esses carinhos
Esse casal de ilusões!…

Cruz e Sousa In O Livro Derradeiro, 1961

Uma ausência de mim

Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
o chão que não foi meu, na relva simples
o outro ser que sonhei se deita e cisma.

Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo —
ou foi o sonho dos demais que sonho?

A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou

um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.

Alberto da Costa e Silva, in A Linha da Mão

Narcisismo

Não é o encanto do teu rosto
(afinal, que medida tem uma beleza?)
nem os contornos da tua paisagem
que me endoidecem ante a lonjura
de percorrê-los,

(é esta urgência de amar
Mesmo não sabendo se a ti ou a mim)

Armando artur In Os Dias em Riste

Dimensão humana

A água, a pedra, o mar,
O lume, a chuva, a folha.
A noite, o vento, o luar,
O rio, a chama, a hulha.
Têm a dimensão humana!
(Pois é no homem que tudo
se conjuga de forma imperativa)

Armando artur In A Quintessência do Ser