Na paz da noite

Na paz da noite, cheia de tanto durar,
Dos livros que li
Que eu li a sonhar, a sentir, a mal meditar
Não vendo que os vi,

Ergo a cabeça subitamente estonteada
Do lido e do vão
De ler e vejo que há paz na noite acabada –
Não no meu coração.

Criança, era outro… Naquele em que me tornei,
Cresci e esqueci.
Tenho de meu agora um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?

[Abril de 1934]

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

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