Mês: novembro 2014

Repouso

Nesta mansidão,
nesta luz transparente,
na calma destes dias,
na suavidade destas tardes,
há um misto de repouso,
melancolia,
e também inquietamento.

Nas coisas adormecidas
há como que promessas
de grandes vidas.

Nestes dias,
em que os cães se deitam ao sol,
mansamente;
em que a roupa a enxugar
não tem uma brisa que a enrugue;
nestes dias,
a natureza dorme
de um sono fecundo.

E a gente fala baixinho
com medo de acordar,
porque nós também dormimos.

Caído de outro mundo
olho em redor.
E esqueço-me de que olho,
esqueço-me do que penso…
Um galo que cantou alto
desfez o mistério.

João José Cochofel, In ”Instantes”, 1937

Explosions In The Sky & David Wingo – Hello, Is This Your House?

O pouco pó que somos

O pouco pó que somos

Não calcas
apenas um pedaço de caminho.

A Terra inteira
está sempre debaixo dos teus pés.

O mesmo torrão que pisas
te irá pesar depois.

Se quiseres leve a eternidade
trata com leveza o chão.

Imaginas-te autor da viagem?

É o oposto:
a terra é que andou em ti.

E, sem queixa nem cansaço,
de mundo e gente
a Terra te acrescentou.

A estrada,
que acreditaste alheia e morta,
é o teu corpo
feito de pedra e sonho.

Mia Couto in “Vagas e lumes”

Mudança de idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

Mia Couto In Tradutor de chuvas, 2011

A Turma

A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens. Bernardo conversava pedrinhas
com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água
na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
Infantis gerava mais poesia do que obedecer
as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das
palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de
Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse

Manoel de Barros

Cantigas praianas: III

III

Vai, branca e fugidia,
A nuvem pelo ar:
Roça de leve a lua,
Embebe-se em luar.

E toda resplandece
No brilho do luar,
Mas pouco a pouco passa
E perde-se no ar.

Minha alma na tua alma
– Nuvem que trouxe o vento –
Passou por um instante
Roçou por um momento,

E toda luminosa
Brilhou… Foi um momento:
Passou como uma nuvem
Levada pelo vento.

Eu refleti apenas
Um brilho que era teu;
Passei, e tu ficaste,
Ficou contigo o céu.

Sonhei… Que belo sonho
Vivido em pleno céu!
Mas, ai! Sonhei apenas
Um sonho todo teu…

A vida era uma aurora,
E a tua voz suave
Cantava em meu ouvido
Como um gorjeio de ave.

Mentias… E a mentira
Era um gorjeio de ave…
Morresse eu enganado
De engano tão suave!

Que angústias na lembrança
De tudo que perdi!
Ai, beijos desse lábio
Que hoje nem me sorri!…

Vestígio derradeiro
Que me ficou de ti,
Bendita esta saudade
De tudo que perdi!

Sim, eu bendigo em pranto
O amor abandonado
Que foi um dia o sonho
De amar e ser amado.

Quem ama sempre, um dia
Deixa de ser amado:
Somente o amor que foge
Não é abandonado…

Que resta em nós agora
Da primavera em flor?
Em ti, o esquecimento,
Em mim, o meu amor.

Amor desfeito em mágoa
Mas abençoado amor,
Que foi, um dia ao menos,
A primavera em flor…

Vicente de Carvalho In Poemas e canções, 1928

Cantigas praianas: VI

VI

Sobe o sol? A noite desce?
Dia e noite são-me iguais:
Se tu chegas, amanhece,
Fica noite se tu vais.

Os meus olhos são de cego
Para o que de ti se aparte:
Só em te ver os emprego.
Mal me bastam para olhar-te.

Gorjeie o sabiá gemendo
Nas aroeiras em flor:
Mal o escuto e não o entendo,
Que só sei do meu amor.

Que há de entender no exagero
Das queixas dos infelizes
Quem ama como eu te quero
E escuta o que tu me dizes?

Sei que há roseiras viçosas
Porque, com os olhos em ti,
Vejo cobrir-se de rosas
Um lábio que me sorri.

Seja Abril ou Junho, quando
Eu estou à tua espera,
Logo que tu vens chegando
Principia a primavera.

 

Vicente de Carvalho In Poemas e canções, 1928

Folhas soltas

Ontem, hoje, amanhã… Como simbolizar
O passado, o presente, o futuro – as três fases
Da vida? Com três frases
De sentido corrente e de uso o mais vulgar:

– Uma saudade; um grande esforço; uma esperança.

Ou antes, e talvez melhor, expondo-as numa
Tríplice imagem que resume a vida inteira:
– Um rosto, luminoso e alegre, de criança;
Duas mãos perseguindo uma bolha de espuma;
E rindo-se (de quê? de tudo) uma caveira.

Nem só o olhar dos olhos de que quem ama
Revela o amor que se supõe discreto,
E o mais oculto, o mais medroso afeto
Ingenuamente à luz do sol proclama.

Também a voz, indiscrição bendita,
Trai o amor sob a frase indiferente;
E debalde a palavra finge e mente:
Na voz que treme o coração palpita.

Desvias dos meus olhos infelizes
O teu olhar… Dizes que não… Loucura!
Em tua voz que trêmula murmura
Ouço tudo que sentes e não dizes.

Jesus

Pálido sonhador que há dois mil anos quase
Sobre uns palmos da Terra atravessaste a vida
Semeando ao vento um gesto, um suspiro, uma frase,
Toda num sonho vago absorta a alma dorida,
Fito no azul do céu vazio o olhar tristonho;

Pálido sonhador, há dois mil anos quase
Enchem de mágoa e sombra a Terra comovida
O eco da tua voz e a névoa do teu sonho…

Faz frio. Há bruma. Agosto vai em meio.
E eu iria jurar, bendito engano,
Que a primavera veio
Antes do tempo, esse ano.

Vi-te. Sob o nublado céu de Agosto
Nem os jardins começam a brotar,
Mas há rosas no teu rosto
E azul, azul de céu, no teu olhar.

Que importa o frio? A bruma? Agosto em meio?
Juro, posso-o jurar, que não me engano;
A primavera veio
Antes do tempo, este ano.

Amo-te. E assim como se não houvesse
Inverno, e terra nua, e bruma no ar
O meu coração floresce
E há luz, há luz de sol, no meu olhar.

Mimi

Vais-te, a sorrir… Que mais queres?
Fico, a lembrar… Que mais posso?
Levas tudo que era nosso:
Tua mocidade em flor…
Pois que te vais tão contente
E me deixas tão sem nada,
Feliz de ti, minha amada!
Coitado do nosso amor!

Mas tu que partes sorrindo
Talvez algum dia, quando
Voltares, voltes chorando
Tua mocidade em flor…
Que encontrarás, quando voltes?
Talvez pouco… Talvez nada…
Pobre de ti, minha amada!
Coitado do nosso amor!

Tu, moça; eu, quase velho… Entre nós dois, que horror,
Vinte anos de distância. Entre nós dois, mais nada.
E hoje, pensando em ti, pus-me a sonhar de amor
Somente porque vi por acaso, na estrada,
Sobre um muro em ruína uma roseira em flor…

Tu dizes que é loucura este amor… Bem o creio.
Como loucura me sorriu, como loucura
Veio cantando, veio
Reduzir-me a um olhar que, num perpétuo anseio,
Te vê, ou te procura.

É loucura este amor? Foi-o desde começo,
Desde que te amo. Tu, dizendo-m´o, bem pouco
Me adiantas, confesso:
Há muito tempo – há quanto! – eu sinto e reconheço
Que te amo como louco.

Mas… Nem eu imagino o amor de outra maneira.
Desde o caso de Adão e Eva no Paraíso,
O amor, minha faceira,
Toda a vida se fez notar pela cegueira
– Nunca pelo juízo.

Vicente de Carvalho In Poemas e canções, 1928

 

Noturno

Tu pensarás em mim, por esta noite imensa
e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?
Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,
tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,
eu penso em ti, no teu amor e na promessa
muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

Sob a tenda da noite estrelada de outono,
que eu contemplo através os cristais da janela,
junto ao manso tepor da lâmpada que escuta
— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas
vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.
Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —
que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;
nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin
agonizando à luz de uma tarde de sonho;
na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.
Penso.

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,
onde se extingue a luz de um velho candelabro
como uma lâmpada votiva, tu adormeces
sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha
para que tu não tenhas sonhos maus.

E eu penso
em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,
em ti, que nem eu sei se te lembras de mim…

Alceu Wamosy  In Coroa de Sonho, 1923
I Parte – Jardim Noturno

O Grande Sonho

… e eu sonho que hás de vir. Sonho que um dia
mais ardente e mais bela do que eras,
virás encher de graça e de harmonia
meu jardim de tristíssimas quimeras.

Sonho que hás de trazer toda a alegria,
todo o encanto das tuas primaveras,
ou que em um reino antigo de poesia,
o meu amor, entre rosais, esperas.

E fico na ilusão de que tu vieste
E nesse sonho de ouro mergulhado,
o teu vulto alvoral surgindo vejo
sobre as próprias feridas que fizeste…

E fico na ilusão de que tu vieste
o bálsamo estendendo do teu beijo,
sobre as próprias feridas que fizeste…

Alceu Wamosy In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho