Folhas soltas

Ontem, hoje, amanhã… Como simbolizar
O passado, o presente, o futuro – as três fases
Da vida? Com três frases
De sentido corrente e de uso o mais vulgar:

– Uma saudade; um grande esforço; uma esperança.

Ou antes, e talvez melhor, expondo-as numa
Tríplice imagem que resume a vida inteira:
– Um rosto, luminoso e alegre, de criança;
Duas mãos perseguindo uma bolha de espuma;
E rindo-se (de quê? de tudo) uma caveira.

Nem só o olhar dos olhos de que quem ama
Revela o amor que se supõe discreto,
E o mais oculto, o mais medroso afeto
Ingenuamente à luz do sol proclama.

Também a voz, indiscrição bendita,
Trai o amor sob a frase indiferente;
E debalde a palavra finge e mente:
Na voz que treme o coração palpita.

Desvias dos meus olhos infelizes
O teu olhar… Dizes que não… Loucura!
Em tua voz que trêmula murmura
Ouço tudo que sentes e não dizes.

Jesus

Pálido sonhador que há dois mil anos quase
Sobre uns palmos da Terra atravessaste a vida
Semeando ao vento um gesto, um suspiro, uma frase,
Toda num sonho vago absorta a alma dorida,
Fito no azul do céu vazio o olhar tristonho;

Pálido sonhador, há dois mil anos quase
Enchem de mágoa e sombra a Terra comovida
O eco da tua voz e a névoa do teu sonho…

Faz frio. Há bruma. Agosto vai em meio.
E eu iria jurar, bendito engano,
Que a primavera veio
Antes do tempo, esse ano.

Vi-te. Sob o nublado céu de Agosto
Nem os jardins começam a brotar,
Mas há rosas no teu rosto
E azul, azul de céu, no teu olhar.

Que importa o frio? A bruma? Agosto em meio?
Juro, posso-o jurar, que não me engano;
A primavera veio
Antes do tempo, este ano.

Amo-te. E assim como se não houvesse
Inverno, e terra nua, e bruma no ar
O meu coração floresce
E há luz, há luz de sol, no meu olhar.

Mimi

Vais-te, a sorrir… Que mais queres?
Fico, a lembrar… Que mais posso?
Levas tudo que era nosso:
Tua mocidade em flor…
Pois que te vais tão contente
E me deixas tão sem nada,
Feliz de ti, minha amada!
Coitado do nosso amor!

Mas tu que partes sorrindo
Talvez algum dia, quando
Voltares, voltes chorando
Tua mocidade em flor…
Que encontrarás, quando voltes?
Talvez pouco… Talvez nada…
Pobre de ti, minha amada!
Coitado do nosso amor!

Tu, moça; eu, quase velho… Entre nós dois, que horror,
Vinte anos de distância. Entre nós dois, mais nada.
E hoje, pensando em ti, pus-me a sonhar de amor
Somente porque vi por acaso, na estrada,
Sobre um muro em ruína uma roseira em flor…

Tu dizes que é loucura este amor… Bem o creio.
Como loucura me sorriu, como loucura
Veio cantando, veio
Reduzir-me a um olhar que, num perpétuo anseio,
Te vê, ou te procura.

É loucura este amor? Foi-o desde começo,
Desde que te amo. Tu, dizendo-m´o, bem pouco
Me adiantas, confesso:
Há muito tempo – há quanto! – eu sinto e reconheço
Que te amo como louco.

Mas… Nem eu imagino o amor de outra maneira.
Desde o caso de Adão e Eva no Paraíso,
O amor, minha faceira,
Toda a vida se fez notar pela cegueira
– Nunca pelo juízo.

Vicente de Carvalho In Poemas e canções, 1928

 

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