Repouso

Nesta mansidão,
nesta luz transparente,
na calma destes dias,
na suavidade destas tardes,
há um misto de repouso,
melancolia,
e também inquietamento.

Nas coisas adormecidas
há como que promessas
de grandes vidas.

Nestes dias,
em que os cães se deitam ao sol,
mansamente;
em que a roupa a enxugar
não tem uma brisa que a enrugue;
nestes dias,
a natureza dorme
de um sono fecundo.

E a gente fala baixinho
com medo de acordar,
porque nós também dormimos.

Caído de outro mundo
olho em redor.
E esqueço-me de que olho,
esqueço-me do que penso…
Um galo que cantou alto
desfez o mistério.

João José Cochofel, In ”Instantes”, 1937

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