Mês: dezembro 2014

Com tuas mãos piedosas

Com tuas mãos piedosas
Faz gestos a sonhar,
Como quem colhe rosas
E acha divino olhar,
Com tuas mãos piedosas
Faze-me repousar.

Sim, os teus gestos lentos,
Teus gestos suaves são
Guias que os pensamentos
Me guiam p’ra a ilusão
Sim, os teus gestos lentos,
Acabando em perdão…

Com tão Madona arte
De existires no gesto
Juntas ao meu ser parte
Do que perde, que imerso
No teu gesto, e na Madona arte
Me desencontro e cesso.

c. 2-10-1915

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Sinto-me forte contra a vida inteira

Sinto-me forte contra a vida inteira
Neste momento.
A mim mesmo tomei a dianteira.
Sinto que não há em nada noite ou vento
Que estorve minha vida aventureira.

Mas já, ao senti-lo, sei que não o sinto
Com o querer,
Mas com o sonho com que me amplo minto.
Sei já que não o quererei perder.
Noutra esta vida do confiar pressinto.

Sarça que não aquece nem dá luz,
Fogo-fátuo de mim,
Para que vens pôr no meu ser a flux
Um tumulto de qu’rer sem ser nem fim?
Ó árvore crescendo para cruz,
Porque florir no meu jardim?

[23-1-1925]

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Sed Non Satiata – Soma

La brume a envahi la plaine aux couleurs fauves
elle a recouvert les lacs immobiles et sombres.
C’est désormais, le gris qui domine.
C’est désormais, la mort qui se dessine.

Je sens dans ce souffle froid venant du Nord, la mort…
Je sens la mort dans cette épaisse brume que rien ne saurait arrêter;
pas même les flammes automnales,
pas même les lueurs estivales.

Je sens la mort dans ce vent froid venu du Nord,
dans le silence de ces eaux et dans mon corps,
que rien ne pourra ranimer,
pas même les velléités d’une vie à demi-assoupie

Et c’est le regard sombre, la gorge serrée
que j’assiste à la mort de cet Homme en qui je croyais.

Mais pourvu que dans le ciel la couleur
et dans tes yeux la lueur
brillent un jour de nouveau,
illuminent mes jours à nouveau.

Envy – The Unknown Glow

Just like the poem tells the marked destiny.
Find the heartbeat hanging faraway,
Future lines up in front grows immaturely.
The goal is the liberation of a mind. Guilt chase.
It goes as it wishes, hiding the abnormity.
Will you smile? Will you notice?
The painful lifeless shell after the exhaustion.
It’s you who gets hurt
And the questions have tossed in.
You have no words worth to answer.

Circulating water stopped by the damage.
Your understanding is stuffed and goes wrong.
You talk your past in vain.
The forgotten current, is it still free?

The difference of reflection
Exists in a line between
The manipulated ones and the thinkers.
Returning is equal to a total denying,
You find happiness at the dark bottom.
Believe in the false power,
Flirt with the smell,
The voices won’t reach,
It always become the scream of the defeated ones.
Beloved place we go hand in hand
Has the same color.
Force ourselves to overcome
Those problems that make no sense.
Many things for me to grasp,
But for you they make no sense.
Being chased around by
My own sense of values
And it shuts down my paths.
You just have to set it free,
Not to restrict.
Beliefs and individual ideals
Ends by telling,
And tommorow also ends.

Repeat the tiny happiness.
Pass by the everyday life.
Charmed by the temporary change.
Accompanied the established trust.
Lies are inevitable.
Need those words that went away
And the tiny voice floats in times
And echoes forever.
The road never disappears
And the spreading smoke wraps
The colorless times.
You just have to receive.
My meaningless words
Are the questions to myself.
Everything is here.
It disappears in a moment.

You just have to let the voice delivered.
This sound, and the proof of heart.
I go save the hanging thoughts. In hurry.
These feet go where they should go to.
Carry the wishes to the quiet place
Where the pieces sleep.

At a quick pace I’m going to the place
Where many of them glow.
Ceasing stands for the beautiful
Setback and segmentation.
Overcome the black plots
With the white gentleness.
Many stares betrayed the time.

I carry my exhausted body.
Bring the unknown glow into a life.
Start up the thoughts.
To the future. Ahead of us.
The stretch of a light we saw is
The scar of hundreds of answers.
Paint. Paint the weakness of
The ones who creep along.

No silêncio da terra

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber,respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me,sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me,flectindo-me
no intervalo aberto. Não sei se principio.
Um rosto se desfaz,um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.
Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.
Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido,unido,silencioso umbigo
do ar.

o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa in de A Pedra Nua, 1972

Amar as palavras

Amar as palavras
é inventar o vento
através da noite
em pleno dia

Se desapareço
grão por entre grãos
é porque deus adormece
como um astro imóvel
polvilhado de pólen

Onde estiver serei
o sono do amor
num claro jardim
e como se estivesse morto
as ervas hão-de romper
das minhas unhas verdes
e a minha boca terá
a ébria frescura
da plenitude do espaço

António Ramos Rosa, in Numa Folha, leve e livre, 2013

Creio nas palavras

Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura

Aqui
no meu reduto
entre ramos de ar
entre a cintilante indolência da água
creio no que nos une
em ondas vagas
apaixonadamente lentas

Aqui
eu pertenço
ao centro da nudez
como uma gota de água
ao rés do solo
na sua imediata e nua felicidade

António Ramos Rosa, in Numa Folha, leve e livre, 2013

Nada mais delicado do que o tecido do olhar

Nada mais delicado do que o tecido do olhar
absoluta nascente do silêncio abóbada cristalina
Em inocência branca os olhos vêem a concreta limpidez
e a sua essência é como um levíssimo aroma rapidíssimo
Entre ser e não ser ondula esta alfombra transparente
cuja exactidão é terna e subtil potência breve
Uma cortesia do imponderável armistício do indizível
secreta graça da atenção e distracção do centro
Como uma lua entre sombras esquiva e confidente
ou como um cristal em movimento ou um nadador redondo
o olhar é um nascimento no permanente olvido
e como um navio equilibra a substância das coisas

António Ramos Rosa, in Delta seguido de Pela Primeira Vez, Lisboa: Quetzal Editores, 1996

Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

o que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensangüentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi as folhagens do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa In Volante verde, 1986

À altura do teu rosto

À altura do teu rosto
os meus olhos habitam no silêncio brilhante.
Não olho: no côncavo vazio recebo-te
igual a ti, a teu lado,
teu rosto me alimenta de fraterno orvalho.

Tu modelas-me no antigo carinho das únicas coisas preciosas,
refazes-me na transparência fraternal,
dás-me a forma translúcida da vida,
a sede luminosa em que tudo se renova.

António Ramos Rosa, in Teu rosto

Clann Zú – One Bedroom Apartment

Don’t leave me, I’m bleeding all over this linoleum floor.
I’m still in disbelief.
I’m drowning between the clear and blackening.
From morning until night
I’m losing sight of all the beautiful things.
There’s nothing here for me without you right here beside me.
Why did you go, did you leave me here,
Leave me here to rot inside this empty place?
I know that you are going far way.
From morning until night
I’m losing sight of all the beautiful things.

A man sits naked in the middle
Оf a room of a one bedroom apartment in New York City
And no one knows he’s there
And no one’s left to care
Whether or not the next drop comes out.
And the blood would be warm and the blood would hug him
Just like she used to
Before she left him in this fucking mess
Where only one sentence repeats itself.
And this is it, it says I will never love again.

And on the fifth day he placed everything he owned
In the centre of the room
And he watched it burn
As he recited all the beautiful words
That had ever come out her mouth.
And these are the same words that mock him now
And tell him that she is not coming back
That he is nothing not worth a fuck
And only one sentence repeats itself.
I will never love again.

And for the first time in 25 years he cried
Rivers of black shitty oil that careered down his chest
As the dam to his past broke,
Exploding, and it’s sinking all of his future now.
And that was then and this is now
As the animals reach their fever pitch
And the windows implode in silence
Out of respect for the dying out of respect for the dead.
I will never love again.

And before he can say stop
He’s running down the street to the beat of his feet
And past all the faces.
Past all the places he’s ever known,
An past all the traces he’s left of himself
And into the sky and into the air
Past all the stars as he’s calling out why.
Over the ocean in search of the only love
That will ever have.
And I will never love again.

Na escrita

Na escrita, na voz ou na aparência
Jamais nos revelamos. Nosso ser
Nem palavra ou semblante o vão dizer.
De nós a alma longe em permanência.
Por mais que a vontade ao pensar dermos
De, por artes, sermos revelados,
Os corações se quedam encerrados
E no que nos mostramos, escondemos.
Abismo de alma a alma intransponível
Não há pensar ou arte que o desfaça;
Distantes de nós mesmos, impossível
Nosso ser ao pensamento revelar.
Sonhos de nós, a alma em clarões passa
E um noutro se vê em seu sonhar.

Fernando Pessoa In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000

Que coisa distante

Que coisa distante
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?

Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.

Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.

2 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Como um Rio

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello In Mormaço na Floresta, 1981

A mudança

Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.

Lêdo Ivo In Plenilúnio, 2004