Nada mais delicado do que o tecido do olhar

Nada mais delicado do que o tecido do olhar
absoluta nascente do silêncio abóbada cristalina
Em inocência branca os olhos vêem a concreta limpidez
e a sua essência é como um levíssimo aroma rapidíssimo
Entre ser e não ser ondula esta alfombra transparente
cuja exactidão é terna e subtil potência breve
Uma cortesia do imponderável armistício do indizível
secreta graça da atenção e distracção do centro
Como uma lua entre sombras esquiva e confidente
ou como um cristal em movimento ou um nadador redondo
o olhar é um nascimento no permanente olvido
e como um navio equilibra a substância das coisas

António Ramos Rosa, in Delta seguido de Pela Primeira Vez, Lisboa: Quetzal Editores, 1996

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