Mês: fevereiro 2015

Anoice – Memories Of You

No jardim

Flutuávamos errantes e vazios
nas leves lufadas da folhagem
e entre espelhos opacos e redondos
feitos de argila e pedras com urtigas.
Os murmúrios obscuros, os rumores dispersos
casavam-se ao olvido e à espessura do longínquo.
No aroma da hora flutuávamos devagar
e se nos abraçávamos as coniventes cortesias
vegetais tornavam-nos vegetais.
Sentíamos no peito os majestosos montes
e o mar estava perto entre duas colinas.
Às vezes as nossas pálpebras desciam
para reter a luz a suave corrente
que de tão longe vinha, do diadema do mundo.
Cada pedra nos dizia o solitário solo
e a imobilidade pura de um nupcial sossego.

António Ramos Rosa In A imagem e o desejo, 1998

Amo o teu túmido candor de astro

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa In O Teu Rosto, 1994

Quando te vi senti um puro tremor de primavera

Quando te vi senti um puro tremor de primavera
e a voluptuosa brancura de um perfume
No meu sangue vogavam levemente
adenomas estrelas barcarolas
O silêncio que te envolvia era um grande disco branco
e o teu rosto solar tinha a bondade de um barco
e a pureza do trigo e de suaves açucenas
Quando descobri o teu seio de luminosa lua
e vi o teu ventre largamente branco
senti que nunca tinha beijado a claridade da terra
nem acariciara jamais uma guitarra redonda
Quando toquei a trêmula andorinha do teu sexo
a adolescência do mundo foi um relâmpago no meu corpo
E quando me deitei a teu lado foi como se todo o universo
se tornasse numa voluptuosa arca de veludo
Tão lentamente pura e suavemente suntuosa
foi a tua entrega que eu renasci inteiro como um anjo do sol

António Ramos Rosa In O Teu Rosto, 1994