Mês: maio 2015

Farei do sonhar-te o ser poeta, e a minha prosa, quando fale a tua Beleza, terá melodias de poema, curvas de estrofes, esplendores súbitos como os dos versos imortais.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Sorrindo

Sorrindo, com as mãos ainda estando
Sobre o teclado do piano findo,
Olhas os que te ouviram, convidando
Cada um deles a sorrir, sorrindo.

Não queres que te digam que tocaste
Com arte, ou segurança, ou emoção.
Sorriste. E assim, sem o sentir, ficaste
Cativa de nenhuma sensação.

Quando a música acaba, acaba o mundo,
E o que há de tudo é nada valer nada.
E ninguém sente senão um profundo
Desejo de uma coisa já acabada.

Mas tu sorris… E todos despertamos
E todos somos gratos e o dizemos.
Mas entre nós há um rio, e escutamos..
O barco voga sem o som dos remos.

10 – 8 – 1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Teu nome

Teu nome, esqueci-o,
Teu ser, o ignorei.
Teu amor, perdi-o
Está bem? Não sei
Mais tarde direi.

Nada, no momento
Em que existe, existe.
Só o pensamento
Dirá se persiste,
Se é alegre ou triste.

Bem sei que, sorrindo,
Sorriste a brincar…
Mas em eu sentindo,
Tudo isso há-de estar
Em outro lugar.

5 – 9 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

A reunião foi marcada

A reunião foi marcada
Para a véspera de nada.
Todos traziam segredos;
Os de alguns eram só medos,
Os de outros a vida errada
Ou a esperança perdida
A que chamamos a vida.

Mas ninguém apareceu.
Uns iam a achar o céu,
Outros a cair no inferno,
E outros num ritmo mais seu,
Num caminho mais eterno.

Apareci eu, só eu;
E à sessão, que não havia,
Presidi, e nomeei-me
Secretário, e falei-me.
Entrei na ordem do dia.

Se isto aconteceu agora,
Ou fora de toda a hora
Que possa haver neste mundo,
Não sei, nem quero saber.
Sofro um descanso profundo
Da reunião por haver.

18 – 10 – 1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Na rua tive um sorriso

Na rua tive um sorriso
Que o acaso deu,
Decerto impreciso,
De algum modo’ meu.

Um sorriso alheio
Que só me foi dado
Por eu estar no meio
Do sorriso olhado:

Que me importa? A sorte
Dá o que acontece.
Tudo é sonho e morte.
Num sorriso esquece.

30 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Contigo, comigo

Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!
Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!…

Como contigo
Eu chego a mim!

Manuel Bandeira

Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo

Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho — um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas — e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.

Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas. Era porém mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.

(…) Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

(…) Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou, porém, menos real que os outros, menos uno, menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos.

 Fernando Pessoa, Rascunho de uma carta a Adolfo Casais Monteiro -1935

Árvores

O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

António Ramos Rosa In Cada árvore é um ser para ser em nós, 2002