Mês: setembro 2015

A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

Não existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a mão se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

António Ramos Rosa, in “A Nuvem Sobre a Página”

Nascimento Último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
Respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que flui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa In Cada árvore é um ser para ser em nós, 2002

Gisela

O que eu te digo alguém o disse
e de tal modo
que pouco importa que o dissesse
fosse quem fosse
e se ninguém o disse
poderá vir a dizê-lo
o que não impede
a urgência de dizer
neste instante

Em cada instante
o mistério é vivo
no silêncio
e na palavra que o diz

O mistério é dito
não pelo que se diz
mas pelo próprio mistério
na obscuridade viva
e na palavra não morre
em cada sílaba vibra
se a palavra é viva
música
de um mistério indefinível

António Ramos Rosa
21-05-05

O instante do silêncio

Se puderes aceitar a nudez
como uma graça ou uma pobreza
talvez encontres
as linhas de força inexplicadas.
Se com o teu peso irremediável,
proferires a palavra que mal pousa
poderás sustentar a magnética felicidade
desse instante,
ameaçado mas vivo,
do indecifrável silêncio da nudez

António Ramos Rosa In A imagem e o desejo, 1998

Para que uma só coisa

Para que uma só coisa
vibre
na sua presença nua
para além da conjunção dos possíveis

é preciso que o silêncio a dispa
e o seu nome seja o seu próprio pudor

António Ramos Rosa In A intacta ferida, 1991

Da grande página aberta do teu corpo

Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor

António Ramos Rosa, em “Nos Seus Olhos de Silêncio”.

O Piso e o Passo

Envelheço como o sapato:
quanto menos sirvo
menos aleijo o chão

Antes,
eu buscava
conhecer um lugar.

Agora,
apenas quero
um lugar
que me conheça

Mia Couto in ” Idades, cidades e divindades”

O habitante

(ao meu pai)

Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

Mia Couto in “Vagas e Lumes”