Mês: outubro 2015

Para alguém que toca

Não pares essa música isolada
Que, como brisa, por mim vem passar
Perdida na calma do anoitecer,
Melodia só a meio escutada
Tal como o som do imenso mar
Que, no movimento, encontra prazer.

Pois em teu ritmo suave e repetido,
Tu, nessa canção em metro desigual,
Em mim acordas a espiritualidade,
Num alargar e morrer do sentido
Que aparece à consciência natural,
Como para o Tempo a Eternidade.

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

Pela Estrada

Ora aqui vamos com a vida a brilhar
No mar dourado da luz do momento,
E no rosto uma frescura a adejar —
Uma frescura de alma em movimento.

Colinas acima! Os vales galgando!
Ora na planície mais devagar!
Balança a carroça nas curvas, guinando,
Na terra, em silêncio, ora a deslizar!

Mas temos de ir à cidade ou lugar,
E nos olhos já a pena aparece.
Pudéssemos sempre continuar
Ao ar e ao sol que bate e aquece;

Em estrada infinita, num andar a gosto,
Em eterno e liberto encantamento,
Com o sol à volta, batendo no rosto —
Uma frescura de alma em movimento!

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

Um dia de Sol

Eu amo as coisas que as crianças amam,
Mas em compreensão funda, acrescida,
Que eleva a minha alma, de anelante,
Sobre aqueles onde inda dorme a vida

Tudo o que é simples e é brilhante,
Despercebido à mais aguda mente,
Com infantil e natural prazer
Faz-me chorar, orgulhosamente.

Eu amo o sol com o seu brilho intenso,
O ar, como se pudesse abraçar
Com minha alma sua vastidão,
Embriagado de tanto o olhar.

E amo os céus com tal alegria
Que me faz de minha alma admirar,
Uma alegria que nada detém,
Uma emoção que não sei controlar.

Aqui estendido deixem-me ficar
Diante do sol, da luz absorvida,
E em glória deixem-me morrer
Bebendo fundo da taça da vida;

Absorvido no sol e espalhado
Por sobre o infinito firmamento
Como gotas de orvalho, dissolvido,
Perdido num louco arrebatamento;

Misturado em fusão com toda a vida,
Perdido em consciência, impessoal,
Fico parte da força e da tensão,
Pertença duma pátria universal;

E, de modo estranho e indefinido,
Perdidos no Todo, um só vivente,
Essa prisão a que eu chamo a alma
E esse limite a que chamo mente.

1908

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999 – Heterónimo de Fernando Pessoa

Nirvana

Um não-existir dentro do Ser,
Um etéreo não-ser fundo sentido,
Uma mais que real Idealidade,
Sujeito e objecto um todo unido.

Nem Vida ou Morte, razão ou sem-razão,
Mas fundo sentir do não-sentimento,
Que calma profunda! Mais funda que angústia,
Talvez como um pensar sem pensamento.

Beleza e fealdade, amor e ódio,
Virtude e vício — tudo já estranhezas;
Essa paz toda calma apagará
De nossa vida a eterna incerteza

Um sossego de toda a humana esp’rança,
Um fim de exausto, febril respirar…
A alma em vão tacteia a expressão certa;
A lógica da fé vai ultrapassar

Um oposto de alegria, do fundo
Desconsolo pela vida que temos,
Um acordar para o sono que dormimos
Um dormir para a vida que vivemos.

Tudo diferente da vida que é nossa
E do que atravessa o nosso pensar;
É um lar se vida nos é túmulo,
É um túmulo se nossa vida um lar.

Tudo o que choramos e o que aspiramos,
Como criança ao peito, ali está,
E seremos mais do que desejamos
E nossas almas malditas terão paz.

1906

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999 – Heterónimo de Fernando Pessoa,

Canção da Partida

Pousa de leve
Inda que um breve
Momento, a tua mão de neve
Sobre meu triste coração
Ainda é cedo…
Guarda o segredo
E pousa leve, como a medo,
Sobre minha alma a tua mão.
Como é que na alma
Pousa uma palma
De mão e como é que a acalma
De toda a dor que não tem fim?
Não sei sabê-lo.
No meu cabelo,
Ao menos, pousa, com desvelo,
Tua mão leve, de marfim.
Que é a vida? Nada.
A sorte? Estrada
Que leva só a alma enganada
Por onde vai e onde não quer…
Que é a alma? Um sono?
Ser? O abandono
De ser, e as folhas que no outono
O ouvido sente anoitecer…

13 – 5 – 1925

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Os barcos passam no rio

Os barcos passam no rio
E fazem-me chorar.
Não sei que quero, e há frio
No meu desejar.

Os barcos passam. As velas
São reais e tranquilas.
Minha dor é janelas
Sobre horas às filas.

Há realmente barcos
No rio exterior…
As pontes têm arcos
E isto faz-me dor.

Queria outra cousa
De acordo comigo.
Queria ser na alma
Como o vento ao trigo.

Há felicidade
Em ondear sem alma.
As paisagens tristes
Inda assim têm calma.

Só na minha dor.
Não há calma ou fim.
Sol tão exterior
À dor que há em mim!

15 – 3 – 1915

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto. 
A sombra já enoitava as moitas. A umidade 
Aveludava o musgo. E tanta suavidade 
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto. 

A viração do oceano acariciava o rosto 
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade, 
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade. 
— Foi então que senti sorrir o meu desgosto… 

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos… 
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia 
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos… 

A paisagem ficou espiritualizada. 
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia 
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada… 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Poema do Andarilho

I

Menor que meu sonho
não posso ser

Mil identidades secretas.
Mil sobras, sombras, mil dias.
Todas palavras e tudo.
Barco de ambigüidade,
sôfregas palavras.
De todas contradições, desencontros,
dos contrários de mim,
andarilho da flecha de várias pontas, direções.
Dos outros seres
que também andarilham.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Andarilho
de ervas sutis
crescidas de noites luzes
becos latinos frêmitos Andes ilhas.
Andarilho
de santos falidos, feridos
de vaidade.
Dos frutos da segurança vã,
vã beleza de repente solidão.

Feitiços, laços, encantamentos.
Prodígios, Tordesilhas, ressentimentos.
Andarilho de perder pele, asa e uso,
mariposa da lua difusa do amanhecer.
Andarilho
de paisagens precárias do sentimento
guardado a sete chaves,
não fotografável,
nem desvendável em câmaras escuras, secretas torturas,
ou à luz de teus olhos surpresos, presos
nos meus olhos, ilhas.
Pois menor que meu sonho
não posso ser

Andarilho.
De insignificâncias magníficas colheitas do nada.
De tudo que ninguém se lembra
nem nunca escreveu.
De uma nuvem veloz reflexo de outra nuvem
andarilha nuvem do sul
de onde vem a luz,
andarilho.

Crescem em mim as palavras sensações mais estranhas
e andarilham.
Arrulho de palavra pousada ave
sobre um minuto de trégua e milagre do tempo
quando o sol se põe atrás do horizonte inquieto
do dicionário
e da dúvida:
armadilha.

na saliva na garganta
na palavra escrita primavera
na capa de um caderno antigo
do Grupo Escolar Polidoro Santiago de Timbó
andarilho de linhas esquecidas tortas velhas trilhas
datas de nascimento e burlescos aniversários
andarilho andorinha
em ziguezague na festa
na face de Deus.

Aos trancos e barrancos, andarilho.
De trincos e garimpos, andarilho.
Andarilho de desafios, desafinos.
De socos recebidos e raros revides,
de atonias em atrofias, andarilho.

Andarilho.
Na diferença palpável da volúpia.
De assédios, impertinências, ideologias.
De recalques,
decalques, vídeos, celulóides, fitas
gravadas da liberdade,
gravatas, contatos, contratos,
andarilho.

Pois menor que meu sonho
não posso ser.

II

Empoleirado em minha gaiola de ineficiência,
andarilho.
Longe de grandes e confortáveis salas
da subserviência, andarilho.
Transitivo, substantivo, adjetivo.
Solto na correnteza do medo, da instabilidade
de tudo, na multidão de afetos.
Eu, claro enigma: sete palmos de terra,
sagrado sopro de todo o sentimento.
Eu, quebrado espelho d’água de Narciso
e fogo de Orfeu entre a paixão
e o definitivo tempo.

Eu estranho a maioria das vezes
na própria terra do poema
onde me sedimento, acidento,
me desencaminho, me aninho,
me enovelo em trama de pouco, em menos,
em quase nada
e mesmo assim andarilho.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

eu matéria recalcitrante do futuro.
Eu a nação inteira sob o impacto do sonho.
Eu dissecando a morte sobre a mesa da manhã.
Eu onipresente e diluído na dor geral.

III

Fechei meu expediente da comoção fácil.
Corretores da insegurança:
deixai a sala de frente da precariedade.

Atravesso jejuns, desdéns,
indecisões, hospedarias do tempo.
A luz acesa de hotéis bordéis pobres e mal cheirosos
suicídios alheios pleonasmos.

Atravesso anúncios
e antenas.
Os homens apressados do século XX
e sua matéria veloz de sobrevivência atravesso.
A rua que antes atravessei atravesso outra vez
e a praça onde contornei a liberdade
da palavra
e da liberdade.
volto a atravessar.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Atravesso cartazes de cinema
ofertas do dia de supermercados.
Estádios de futebol, sirenes que falam
de morte inventada em subterrâneos sombrios.
Atravesso lianas, liames, hienas, reconciliações,
pecados capitais e provincianos ais.

Atravesso manchetes
de maré cheia, crescente de vazantes mares,
absurdas frases e as mais absurdas caligrafias,
atravesso sentidos sem sentido nenhum, de repente,
onde me decifro e hieróglifo.

Vácuos, opalas, opalinas, vícios.
Mesuras, curvaturas, arbítrios, alienações.
Tudo atravesso.
Atravesso a casa dos ventos uivantes.
O assombro, a censura,
a navalha na carne.

Atravesso o crime perfeito, utopias,
as profecias todas do país das falas guaranis,
guaranás.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

IV

Não afino com instrumento
que se toca à distância
Não proponho propostas de diluição
Não sou agente do vazio
nem de asas que o homem não tem

Se acreditais em sistemas de elocubração
Na gema brilhante do nada
Em recheio de palavras e sofisticados relatórios
Se acreditais em clara batida
nas panelas obscuras da prepotência
Se quereis teorias de mim
Se me quereis longe da paixão:
tirai o cavalo da chuva

Pois menor que meu sonho
não posso ser.

V

Passa o tempo.
Como passa, passou o tempo.
oh! frase feita,
inútil consolo e alívio.

Passo este tempo que me passa.
Passo pontos de interrogação, helespontos,
helespantos.
Passo a ponte, o poente.
Deliberadamente passo
mas sem pressa, passo
a passo.
Passo os fusos horários
e passeio entre o sonho
e as palavras.

Também entre as obscenas por decreto.

Pois menor que meu sonho
não posso ser.

VI

Atravesso compêndios, currículos, apostilas
de silêncio
e minha sombra pisada
por outra sombra
também feita de tudo
e nada
Atravesso simulacros
e arranco o lacre da palavra

Pois menor que meu sonho
não posso ser

atravesso o avesso
E meu barco de travessias
é a palavra terra
cercada de água por todos os lados

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Estou do lado de lá da ilha
Aqui disponho de mim
e conheço meu próprio acesso
Aqui conheço a face inversa da luz
onde me extravio
e não cessarei jamais

Pois menor que meu sonho
não posso ser.

Lindolf Bell In O Código das Águas, 1984

Conquista

Bastou a gota luminosa da tua presença
a transfigurar-me o espaço coalhado e morno
dos sonhos que apodrecem sem que ninguém os [visite
em presença física.
Isso bastou.

Hoje, a recordação dessa hora
apenas canta no pinheiral batido pelo Leste.
Mas ficou-me nos olhos o sinal
de quem alguma vez escutou
a chamada subterrânea da vida.

João José Cochofel, In “Búzio”, 1939.