Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto. 
A sombra já enoitava as moitas. A umidade 
Aveludava o musgo. E tanta suavidade 
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto. 

A viração do oceano acariciava o rosto 
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade, 
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade. 
— Foi então que senti sorrir o meu desgosto… 

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos… 
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia 
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos… 

A paisagem ficou espiritualizada. 
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia 
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada… 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

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