ELEVAÇÃO

I
Antes de haver luz, a ideia da luz brilhava
Em Deus que a pensava,
E porque no pensar divino a ideia da luz passou,
A luz para sempre ficou
E se fez, vinda do além da eternidade,
Chama viva, em verdade,
Que ao viver estremece e fica colorida
À dimensão de nossa alma e vida.

Antes da luz, quando a noite inda era rainha
Sobre o mundo que tinha,
Na presciência de Deus podia ser realidade
Essa luz da eternidade,
Pois o tempo não entra no divino pensar
Nem a Hora tem um lugar.

Toma assim, meu Canto, da luz o modo de estar
E fica a cismar
Como a Pomba não nascida, sobre a fundura imensa
Da consciência,
Tirando como teu quinhão esse divino pensar
Que a luz fez brotar.

Que as palavras irrompam dessa chama divina
Que em seu nome ilumina
As coisas por dentro, seu sentido elementar.
Mesmo que a terra esteja a tapar,
Em fixa aparência, o Sol em cada Criatura,
No teu voo em altura
Leva os raios do Sol ainda por nascer,
Dos quais é tecido o viver.

Eleva-te, Canção, da noite e do sofrimento
E capta a luz no momento
Antes que ela apareça no horizonte, em ascensão,
Pronta para a acção,
Trazida dos sonhos pela visão intensa
De luz imensa.

Mesmo não entendida ou acreditada,
Sê refrescada
No sopro-brisa com a manhã trazido
Do Não-nascido.
Ergue o teu voo, como pela madrugada a cotovia,
E teu rumo cria
Frente ao possível dia vivido,
Na aurora escondido.

Não importa que ninguém entenda o teu dizer.
Um tempo irá irromper
Da eternidade, como rompe cada dia
Da noite que havia.
Tuas asas tocarão a luz oblíqua das madrugadas
E, para cima levadas
Banhadas de luz, dessa luz perto estarão
Quando ainda é escuridão.

A esperança é teu voo prontamente erguido
Da noite fugido,
alegria é o tocar dos primeiros raios do dia
Que se denuncia,
Vida é o caminho que rouba o teu voo à terra soturna
Em sombra nocturna,
E estas três coisas se fazem uma em teu crer
De que é breve o sofrer.

 

II
Tu, Ave invisível, essência de espiritual fulgor
Mas que tens o teu esplendor
Na condensação da externa claridade,
Tu, que és minha e na verdade
Não minha, já que a todos na terra pertencendo,
Asas de um renascimento
Cujo canto, embora ouvido em mim, participante
De tudo no todo exultante,
Tu, ponto de encontro de mim com as asas
Em cada coisa veladas,
Tu, sopro, visto ou invisível, vapor
De abstracto amor,
Tu, exalação do voo aprisionado,
Das coisas pesado,
Tu, que em mim és medo, louco esplendor,
Tudo feitiço e dor,
Atrai-me, leva-me e ergue-te, ó puro voar,
Comigo em teu olhar,
Perdido, solto, nu e divino nas alturas
Onde está o que procuras!

Ó Cotovia-Espírito que acordas de madrugada
E és renovada
A cada vinda do sol que se revela,
Sendo a mais sábia parcela
De toda a mensagem ao nosso terrestre ver
Do dia que vai se erguer!
Ave sem peso que nem os campos conseguem chamar
Mas que tem de realizar
O seu destino no ar, sobre pântanos desolados
E fundos prados,
Com a Grande Trombeta nas livres alturas a viver
Mesmo ainda por nascer!
Ó Ave estéril, sem ninho ou lar possuir,
Apenas o que surgir,
Que só tens voz quando, no alto, a pairar
Sobre ninho, amor e lar,
Pensando apenas no dia que vai nascer,
Mesmo se longe estiver,
Pareça, aos que medem teu voo na subida
Só pela altura atingida
E não pela intenção, que é levada
Da vida e ligada
Àquelas horas divinas que só as coisas aladas
Encontram com suas asas!
Ó Ave de canto impiedoso e voto indizível,
Cujo voo alcança em seu nível
Alturas imensas, de ar puro, libertadas
De alegrias medidas, pesadas!
Leva em teu propósito todo o meu coração
E faz o voo da minha canção
Descer à terra, semelhante ao teu canto
Em estranheza e encanto
À distância, a perder-se em mistérios sem fim
Lá ao longe! Canta, sim,
Seja meu peito o que diz teu cantar,
Minha vida teu voar,
Meus medos e esperanças teu som nas notas que fluem
E a mim flutuem,
E seja o alto desígnio oculto em meu fado
Pela tua altura dado!

Meu coração será feliz assim, mesmo se dorido,
Livre, inda que oprimido,
Para manter a alta alegria donde vem o encanto
Do teu ao nosso canto.
Possa então a alma ser feliz, plena e em liberdade.
Oh, em felicidade
Ergue-me de mim e eleva-me a vida até possuir
O que tentas conseguir —
A luz, o céu, a distância e o amanhecer
Até que eu, por nascer
De novo para a dispersão pura nos mares
Dos elevados ares
Que te falam da luz, antes da luz nascer e o dia,
Até que a alegria
De ser, sem meu ser, me vá transformar
Em céu e cantar!

Fernando Pessoa In POESIA INGLESA II , O Rabequista Mágico, Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000

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