Mês: janeiro 2016

(Abro a janela)

Abro a janela
e fixo o olhar
no sol que espreita
devagarinho

(afinal, as manhãs sobem
Como um grito de esperança)

no remanso da aurora
chega-me o perfume adocicado
das espigas de milho.

viajo pela memória.
e como uma ave
ávida de migração urgente
viajo às ribas distantes
onde o futuro se desenha livre.

(com a ânsia à flor da pele
aqui permaneço em vigília
e, inteira, a vida se inscreve
em pleno dia.)

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

 António Ramos Rosa, in Antologia Poética, 1986.

Recomeço

Como o cavalo que relincha impaciente
e bate os cacos diante da estalagem
e com o rabo fustiga as moscas que o importunam
assim a morte está sempre à nossa espera.
Após a primeira morte outras virão
e continuamos a morrer, habitando o espaço
onde se movem os pássaros e as abelhas
e o peixe imprudente que salta entre as pedras.
Tudo em nós é recomeço, origem devolvida.
Além da noite escura encontramos o dia,
reinício da vida leve como palha
que estremece perene entre as estrelas.

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990

Alongo-me

O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida
a face
ida.
O rio sempre renasce.
A morte é vida.

João Guimarães Rosa, In Magma, 1936

Como a folha em móveis águas

Como a folha em móveis águas,
De onda em onda, em confusão,
Rola de mágoas em mágoas
Meu inerte coração.

Mas nem as águas o arrastam
Por vontade de arrastar;
Por um destino se afastam
Alheio ao seu afastar.

Assim as mágoas que apertam
Meu coração, é sem qu’rer

25 – 12 – 1924

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

RILKEANA

De ti e desta nuvem; desta nuvem
branca como voo de pássaro
em manhã de Abril; de ti
e da íntima chama de um fogo
que não consente extinção;
de ti e de mim fazer um só acorde,
um acorde só; para não te perder.

Eugénio de Andrade In Os Sulcos da Sede, 2001