Mês: fevereiro 2016

Liberdade

Quero ser a areia que cobre
apressada o corpo desnudo do universo
 
quero assobiar aos pássaros
a música despida dos ventos
 
baloiçar no luar despreocupado
fugir das mãos das árvores pregadas na terra
sopraro meu nome escrito na areia quente do deserto
voar abraçada nos dedos dos pássaros para bem longe
sem deixar marcas ou arrependimentos
 
Sónia Sultuane, In No colo da Lua, 2009
Anúncios

Nasci poeta

Embriagaram-me os poetas invisíveis e imaginários
que me habitam quando durmo
 
levito na sala do pensamento amassado
as palavras dançam apressadas,
bebo e gosto dos versos adocicados,
nos meus lábios ainda guardo o gosto
do café amargo o último trago do cachimbo
do poeta desconhecido que me embalou,
 
na escuridão encontro a luz do arco-íris
para desenhar os poemas partilhados pelo cordão
umbilical.
 
Sónia Sultuane, In No colo da Lua, 2009

Tocarmo-nos

Quando nos tocávamos,
nem precisávamos de falar,
simplesmente sentíamo-nos,
tínhamos a paz das palavras,
os gestos, os corpos falavam sozinhos,
nessa linguagem muda de sentidos,
nessa alquimia profunda,
hoje..!
precisamos dizer em palavras, em falas,
hoje precisamos de ontem,
para sentirmo-nos,
porque o nosso futuro,
é o passado,
porque o nosso sentir precisa de ser lembrado e falado,
para nos podermos novamente tocar.

Sónia Sultuane, In Imaginar o Poetizado, 2006

Dos frutos do amor

Tudo que sei dizer-te é que és
nua:
E lenta a flor, como o Sol, eis
que de múltiplas formas te
desabrochas em mim: as tuas
mãos de vidro, lentas, os teus
lábios húmidos, quentes, à forma
como me beijam.
Caída chegas-me pelo corpo,
pela alma. És lenta, e nua
explodes, como uma mina
aberta à memória. És alta como
pólen, a doce lentidão como me
chegas, vagarosa pela boca, a
vocação com que o fazes: lenta
no beijo, até ao tutano, lenta às
carícias, até às trompas de faló-
pio. Tua a lentidão uma fonte
de água, sem rumor, incessante.
Tua a vertigem, repetitiva
como me chegas, quente, suave,
febril
Adelino Timóteo In Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida, 2011

Desamores até à Partida

Eras lenta, amorosa, para lá do limite da paciência. Como uma sinfonia dos oboés, ritual me acariciavas que não te fartavas, delicada que me alongavas os bornais, firme a saliva pela língua. Como uma sinfonia de Handel. Se os amassavas em blandícia de uma amorosa silvestre, pelo teu amor ancorei-me ao futuro e a minha alma inquieta e revolta rejubila-se de alegria. Como uma asa em peos, dissona. Em noites como esta teu corpo era todo o foguetão, a gosto, antes de os levares em cruzada à garganta. Era à varanda deles que repousava o teu cansaço. Aquele amor cândido. Aquelas amoras dóceis. Tanto que te amando, se me convertes numa árvore onde eu sou um réptil que a sobe tronco e ramo, numa impulsão ao que se me ocorre sempre: aos frutos do amor, a amora sobre a língua vagarosa, ao anel de rubi cinzelado entre as pernas, dedo e unha. Era só uma lembrança, pois então quebraram-se as asas e nenhum de nós os dois voa. E o silêncio se me interpela. Já não é. E sempre era de noite quando volvia aos teus prumos. E a pergunta com que o silêncio se me interpela se cristalizará com o tempo. Eis mais este presente dilacerado que nos sobrou. Delicada a chuva sobre a celha dos rostos até à partida.

 Adelino Timóteo In Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida, 2011

Sobre as areias

É outra vez a música,
é outra vez
a música que me chama,
outra vez esse esplendor
quase animal
que me procura
e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.
Eugénio de Andrade, In Rente ao Dizer, 1992 

Eu quero num repouso abrir os olhos sob as pálpebras

Eu quero num repouso abrir os olhos sob as pálpebras
não para ver alguma figura mas para me libertar de todas as imagens
e ver o que talvez seja o veludo do teu silêncio
ou a sombra da tua sombra como um manto da distância
Se é a minha entrega que suscita o teu velado abandono
ou se és tu que o geras com o teu silêncio
não o sei dizer mas sei que o doce movimento de água
dos músculos do meu corpo está em consonância com o teu ser
E se isto é apenas um imaginar das veias
o meu repouso respira como um astro de sombra

António Ramos Rosa, In “O deus da incerta ignorância seguido de Incertezas ou evidências”, 2001

Devo-te

Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu. 

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas – estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta – ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos!

Vítor Matos e Sá, in ‘O Silêncio e o Tempo’