Mês: maio 2016

O Tempo em que o Mundo tinha a nossa idade

Eu ouvia os anciãos e ainda duvidava: não restaria, ao menos, um lugarinho onde eu me encontrasse em privado sossego? Um sítio que a guerra tivesse esquecido? Isso, os mais velhos desconheciam. Seu mundo terminava ali, tudo o resto se fazia mais longe que o impossível.

– Só o nganga (Nganga: adivinhador; aquele que atira ossículos divinatórios.) lhe pode ajudar. Talvez ele sabe um lugar sossegadinho. Sim, eu deveria consultar o adivinho. Só ele podia saber do tal recantinho, coisa de eu guardar meus sonhos. Contudo, eu nunca poderia lhe falar sobre os naparamas. Isso era competência dos feiticeiros do Norte.

Anoitecia quando me afastei do frondoso canhoeiro. Já se fazia tarde mas, ainda assim, passei pela cabana do nganga.

– Esse lugar existe mas sofre de lonjura muito comprida.

Foi o dito do curandeiro, as duas mãos sobre os joelhos. O problema não é o lugar, disse, mas o caminho.

– O caminho?, perguntei.

– Veja o seu pai, maneira como aconteceu com ele.

Não entendi. O adivinho alisava as pernas joelhudas, parecia tirar delas a força de adivinhar. Então, ele me confessou estranhas coisas. Disse que havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer. Meu pai escolhera os dois caminhos, um pé na doideira de partir, outro na loucura de ficar.

– Por isso eu digo: não é o destino que conta mas o caminho.

Que ele falava de uma viagem cujo único destino era o desejo de partir novamente. Essa viagem, porém, teria que seguir o respeito de seu conselho: eu deveria ir pelo mar, caminhar no último lábio da terra, onde a água faz sede e a areia não guarda nenhuma pegada. Eu que levasse o amuleto dos viajeiros e o guardasse em velha casca do fruto ncuácu (Ncuácu: árvore de fruta. Nome científico: Strychnos madascarensis.). E procurasse os confins onde os homens não amealham nenhuma lembrança. Para me livrar de ser seguido por meu pai eu não podia deixar sinais do meu percurso. Minha passagem se faria igual aos pássaros atravessando os poentes.

Segui o conselho dos anciãos evitando o assunto dos naparamas. O nosso adivinho se iria sentir magoado de não saber mexer em meus pedidos. Me calei, ouvidor de seus demorados conselhos.

– Te vais separar dos teus antepassados. Agora, tens de transformar num outro homem.

O velho nganga atirou os ossinhos mágicos sobre a pele de gazela. Os ossos caíram todos numa linha, disciplinados.

– Está ver, todos linhados? Isso quer dizer: você é um homem de viagem. E aqui vejo água, vejo o mar. O mar será tua cura, continuou o velho. A terra está carregada das leis, mandos e desmandos. O mar não tem governador. Mas cuidado, filho, a pessoa não mora no mar. Mesmo teu pai que sempre andou no mar: a casa onde o espírito dele vem descansar fica em terra.

– Vais encontrar alguém que te vai convidar para morar no mar. Cuidado, meu filho, só mora no mar quem é mar.

Terra sonâmbula, Mia Couto