A uma criança longe

Escrevo-te estas palavras
sabendo que as não lerás.
Entanto, o desejo de comunicar
é maior do que essa certeza.
Estamos irremediavelmente longe
de todos os contactos possíveis,
mas tu aconteceste,
encheste
o frio de nossas vidas
com o calor do teu sorriso
e a graça de teus gestos.
Breve,
como breve paira
a leve folha outoniça,
ou a humilde gota de chuva
que se desprende do beiral,
foi a tua presença entre nós.
Sua lembrança persistente
está no gosto amargo do sorriso,
marcada na fronte,
no brilho empalidecido de nossos olhos.
Intimamente, no mais íntimo
de mim
esquadrinhei todos os ângulos
do improvável. Nunca mais
nos encontraremos. Jamais.
A morte é isso, é acabar
simplesmente, não acontecer mais
jamais.
Nada me auxiliam as lágrimas
que me salgam a face
e o muito que tenho blasfemado
de borco, rente ao teu silêncio gelado.
Esta a lógica prosaica dos factos:
Continuamos a viver, dolorida
a consciência
da tua cada vez maior ausência.
E teu pequeno corpo moreno,
que nem todo o amor aquece,
é um palmo de ternura
que apodrece.

Rui Knopfli, Obra Poética, Lisboa

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