Mês: fevereiro 2017

Ficava ali a encharcar-se de mar

“Ficava ali a encharcar-se de mar. Queria semelhar-se com o barco. Quando houvesse viagem, já ele se converteria em madeira salgada.”

Mia Couto in ” Contos do Nascer da Terra”

“A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. A bordo do barco que me leva à Ilha de Luar-do-Chão não é senão a morte que me vai ditando suas ordens. Por motivo de falecimento, abandono a cidade e faço a viagem: vou ao enterro de meu Avô Dito Mariano.

      Cruzo o rio, é já quase noite. Vejo esse poente como o desbotar do último sol. A voz antiga do Avô parece dizer – -me: depois deste poente não haverá mais dia. E o gesto gasto de Mariano aponta o horizonte: ali onde se afunda o astro é o mpela djambo, o umbigo celeste. A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. No Avô Mariano confirmo: morto amado nunca mais para de morrer.

     Meu Tio Abstinêncio está encostado na amurada, fato completo, escuro envergando escuridão. A gravata cinza semelha uma corda ao despendurão num poço que é o seu peito escavado. Rasando o convés do barco, as andorinhas parecem entregar-lhe secretos recados.”

Mia Couto in “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.”

” Em silêncio finquei os pés na areia como se estancasse um rio. E era o choro que eu estancava. Melhor teria sido deixar o pranto acontecer. Dizia a nossa mãe que quando choramos, a alma segue o exemplo da Terra, sob a chuva, torna-se barro. E o barro nos dá a casa, o barro é quem molda a nossa mão.”
Mia Couto in “Mulheres de Cinzas
 
” Olhos nos olhos, lágrima de um umedecendo a alma do outro…a mão de um anjo suavizando feridas.”
Mia Couto in ” Na berma de nenhuma estrada ”
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Quando a noite curva os ombros

Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre

Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol

António Borges Coelho, Ao Rés da Terra

vem comigo

vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforme e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu

Al Berto In O Medo

Hei-de trazer-te aqui

Hei-de trazer-te aqui para te mostrar
os pequenos barcos brancos
que levam o Verão desenhado nas velas
e trazem no bojo a alegria dos arquipélagos
onde se ama sem azedume nem pressa.
Aqui, temos a ilusão breve
de que os dias sabem a pólen
e esvoaçam nas asas das abelhas
como cartas eternamente sem resposta.

                                                                                                                    José Jorge Letria, in “Capela dos Ócios”

Outras tantas vezes morrerei no que não disse

Outras tantas vezes morrerei no que não disse.
Esta palavra morte teima em não me sair
da boca. É antiga e grave como
um pressentimento ou uma cicatriz.
Olho-me nos retratos da distância
e tenho um nome feito de algas.
Toda a minha vida é um círculo inquieto:
os filhos no meio a brincarem com a areia,
a erguerem cidades no vento, e eu de pé,
atordoado pelo medo, a interrogar-me
sobre o amanhã das falas que me tiram
de enganos e temores. Desenho uma planície
branca ou uma casa indefesa e tudo
o que sei é um motim de sombras
à ilharga dos olhos na véspera de outras águas.

José Jorge Letria