Mês: abril 2017

A água vai andar e ler o chão. Vai lamber as feridas da terra

“A água vai andar e ler o chão. Vai lamber as feridas da terra.”

Mia Couto in ” Vozes anoitecidas”

“Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.

Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.”

Mia Couto in “Contos do nascer da Terra.”

“-Esse homem vai carregado de sofrimento.
-Como sabe?
-Não vê que só o pé esquerdo é que pisa com vontade? Aquilo é peso de coração.
Explica-me que sabe ler a vida de um homem pelo modo como ele pisa o chão. Tudo está escrito em seus passos, os caminhos por onde ele andou.
– A terra tem suas páginas: os caminhos.”

Mia Couto- “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.”

” Em mim galopava um rio e, aos poucos, fui me afundando nesse turvo fundo onde todo chão é água.”

Mia Couto in “Mulheres de Cinza”

” Morrer na água é um regresso. Foi isso que senti ao ver o mar pela primeira vez: saudade desse ventre, para onde naquele momento eu retornava. Saudade dessa morte doce, desse pulsar de um duplo coração, dessa água que afinal é todo nosso corpo…
Todos nós, já antes, estivemos afogados antes de nascermos.
A luz que nos recebeu no parto foi a primeira praia onde desembocámos.”

Mia Couto in “A Confissão da leoa.”

” Pela dança voltamos ao ventre materno. Foi lá, nesse oculto abrigo, que libertámos o primeiro tambor e executámos os primeiros movimentos de embalo. Foi lá que fomos peixes, fomos água, adormecida onda, incessante maré.”

Mia Couto in “O outro pé da sereia.”

” Para não ser atacado por mais recordações – com o risco do arrependimento – ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.”

Mia Couto in ” Na Berma de nenhuma estrada.”

” Há esperas que nunca se aprendem. Mesmo sob o dilúvio, continuaremos aguardando a chuva. É de outra água que esperamos”

Mia Couto in “Venenos de Deus, remédios do diabo”

“Para dizer a verdade, eu só me sinto feliz quando me vou aguando. Nesse estado em que me durmo estou dispensada de sonhar: água não tem passado. Para o rio tudo é hoje, onda de passar sem nunca ter passado. Há aquela adivinha que reza assim: “em quem podes bater sem nunca magoar?”O senhor sabe a resposta?

Eu lhe respondo: na água se pode bater sem causar ferida.

Em mim, a vida pode golpear quando sou água. Pudesse eu para sempre residir em líquida matéria de espraiar, rio em estuário, mar infinito. Nem ruga, nem mágoa, toda curadinha do tempo.”

Mia Couto in “A Varanda do Frangipani

“Lhe pego nas mãos a adocicar seu coração. Lhe afago os dedos, mesmo por cima das cicatrizes, como se estivesse corrigindo o seu passado.”

Mia Couto in “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.”

Rachel Grimes – The Air in Time

Ritmo Interior

Eu quero sentir-te, Maria, dormir
Tão perto ao meu lado,
E tanto, tão fundo, tão bem o sentir
Que possa enganado
Julgar-me vivendo num pálido além
Contigo somente
E numa só alma que as nossas contêm
Amando-te insciente,
Sentindo-te como sentindo-me a mim,
Em mim embebida;
Sem forma ou lugar, com o tempo sem fim
Medindo essa vida.

22 – 6 – 1909

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Canção

Ide buscá-la, Desejos,
Pela mão a conduzi.
E tu, de amor serena flor,
Traz a alma cheia de beijos
Que eu tenho sede de ti.

Além do sono e do sonho
Nos teus braços quero ir.
(Ah, como é triste tudo o que existe!)
Quero sentir-me risonho
Sem passado nem porvir

E assim eternamente
No teu seio me ficar,
Dúbios, perdidos, os meus sentidos,
Vago ser que apenas sente
Que está além do chorar.

15 – 11 – 1908

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Cinza

No silêncio das cousas tristes
Ó minha amada,
Só tu para mim existes
Abandonada
De tudo quanto é corpo e realidade
Em tua alma; enfim
Sob a forma sentida da verdade
Dentro em mim.

No sossego das horas mortas
Ó minha amante
Só tu me apareces e exortas
E o Instante
Vive do que em ti vale mais, querida,
Do que o teu ser
O que em ti, cousa íntima e indefinida,
Não saberá morrer.

25 – 9 – 1910
Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Há quanto tempo eu não passava aqui

Há quanto tempo eu não passava aqui
Por esta rua, há dez anos talvez!
Aqui morei, contudo, aqui vivi
Um tempo — uns dois anos ou três.

A rua é a mesma, o novo é quasi nada
Mas ela, se me visse, e o dissesse,
Diria, É o mesmo, e eu ‘stou tão mudada!
Assim a alma lembra e esquece.

Passamos pelas ruas e por gente,
Passamos por nós mesmos, e acabamos;
Depois na ardósia, a Mão Inteligente
Apaga o símbolo, e recomeçamos.

12 – 3 – 1928

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005