Mês: maio 2017

XII

Por que não me esqueces
Velhíssima-Pequenina?
Nas escadas, nas quinas
Trancada nos lacres
No ocre das urnas
Por que não me esqueces
Menina-Morte?

Sempre à minha procura.
Tua rede de avencas
Teu crivo, coágulo
Tuas tranças negras

Por que não viajas
No líquido cobre
Da tua espessura?

E por que soberba
Se te procuro
Te fechas?

Hilda Hilst In Da Morte. Odes Mínimas, 1979

 

Não desisti de habitar a arca azul

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo,
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios elétricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranqüilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitetura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.

António Ramos Rosa, em “Três”, 1975

De onde tu és? – perguntou Deolinda.

De onde tu és? – perguntou Deolinda.
-Sou da Guarda.

Ingènua malícia no olhar, ela sussurrou no ouvido de Sidónio Rosa.
– Tu és o meu anjo-da-guarda.

O riso dela ganhou espessura, inundando-lhe o corpo. Depois, o corpo já não lhe bastava e ela se encostou nele. O português viu as suas defesas desmoronarem. Os braços dele envolveram-na, a medo. Quando deram conta, estavam enleados, sem saber que parte pertencia a um e a outro. A Praça do Rossio, em Lisboa, ficou de repente, despovoada. Um homem e uma mulher trocavam beijos e o seu amor desalojava a cidade inteira.

– Tens medo de fazer amor comigo?

– Tenho – respondeu ele.

– Por eu ser preta?

– Tu não és preta.

– Aqui, sou.

– Não, não é por seres preta que eu tenho medo.

– Tens medo que eu esteja doente…

– Sei prevenir-me.

– É porquê, então?

– Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.

– Que olhar é meu nos olhos teus?

Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso. Nessa noite o corpo de um foi lençol do outro. E ambos foram pássaros por que o tempo deles foi antes de haver terra. E quando ela gritou de prazer o mundo ficou cego: um moinho de braços se desfez ao vento. E mais nenhum destino havia.

– Amar – disse ele – é estar sempre chegando.

Um ano depois, sentado sobre um banco de pedra, o português sente ainda chegando a Vila Cacimba enquanto convoca as memórias do encontro com a mulata Deolinda. O que faltava, agora, para que ele se sentisse já chegado?

Lembrou os versos que ele próprio rabiscara na ausência de Deolinda:”Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, eu sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudade. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver.”

Na poesia, haveria oásis e desertos. Mas, em Vila Cacimba, havia apenas uma praça onde um médico estrangeiro se banhava nas lembranças de sua amada. É no meio dessa praça que esse médico aspira o ar fresco e sorri de satisfação: no seu país é Outono e, àquela hora, ele estaria submerso entre o frio cinzento.

Esses são os pensamentos de Sidónio Rosa enquanto se dirige a casa dos Sozinhos. Desta vez, porém, não entra. Está um dia demasiado luminoso para ele se adentrar naquele escuro. Ronda a casa, em bicos de pés, e bate na janela do quarto de Bartolomeu. Ensonado, o rosto do velho, inquisitivo, enfrenta a claridade.

— Deixe a janela aberta que é para respirar este arzinho da manhã — convida o médico. — É uma coisa boa desta nossa Vila: o ar aqui é muito abundante. Isto não é atmosfera. Isto aqui, caro Doutor, é artmosfera.

Mia Couto in “Venenos de Deus, remédios do diabo”

Chuva da tarde

Tela desbotada.
Gemidos
Duma canção quebrada.

Angústia
De todas os passos
– Perdidos.
E de todos os passos
– Achados.

Nos arvoredos
Chora adeuses de alma cativa,
Mão fugitiva,
De dedos finados.
E as gotas d’ água tombam, desprendidas
Das folhas pelo ventos sacudidas
– Como amargos e amorosos segredos…

Nada que exalte.
Tudo que submeta

Porque te espero
No silêncio e sombra da tarde morta
– Se nunca vens?
E, se viesses,
Já não serias a mesma?
Se, de tudo o que fomos,
Apenas me restaria
-Num olhar que trocássemos-
A tristíssima certeza
Da gota d’ água que tomba, desprendida
Da folha pelo vento sacudida?

Não.
Prefiro que fiques
No mundo antigo e ausente,
– Lá onde o meu pensamento te chama
E o meu coração te sente.

Alfredo de Barros, Versos de cinza, 1946

Canção da rua sem nome

Não me importo de esperar
Até a noite descer.
Toda a glória de amar
Está no permanecer.
Não me canso de esperar
Até a aurora surgir.
Todo o encanto de amar
É viver sem possuir.
Cobre-me o céu, piso a terra,
Avanço, paro, estremeço
E quedo-me a meditar
É longa a minha esperança
Como uns olhos de criança
Contemplando à noite o mar

Alfredo de Barros

O que direi

Direi que nasci
se fores água
em minha boca desaguada.

Direi que cheguei
se o teu peito
em mim abrir o seu leito.

O rio se espraia
para se perder do chão,
e eu de mim saberei
quando me afogar na tua mão.

Direi, então, que vivi
sem precisar de ter nascido.

Mia Couto, em “Vagas e lumes”. Lisboa: Editorial Caminho.

Derradeiro Sonho

Este é o meu último sonho, disse.

E pensaram o pior:
que ele anunciava o fim.

O homem, porém, a todos tranquilizou.

Que ele apenas queria ser
um passageiro inquilino da ausência.

Não quero mais sonhar, anunciou.

Os sonhos trazem promessas,
e eu me quero descrente,
primeiro homem antes da humanidade.

No sonho há vozes,
apelos de mundos sem fim.

E eu não quero
ser chamado por ninguém.

Não há que de mim afastar
nem veneno, nem cálice,
sossegou ele os presentes.

Eu tenho a morte para me embriagar.

E de tão embriagado
apenas acedo ao meu póstumo sono.

O que sei da eternidade:
céus que luzem
mesmo depois de apagados.

Mia Couto, em “Vagas e lumes”. Lisboa: Editorial Caminho.

Que deixo por legado

Molda-se por dentro
a chave com que me abro.

Já não
sei do meu princípio.

De nascença
não sou de alma, mas de pedra.

Eis o que deixo:
de todos os tamanhos, os sonhos
de todas as cores, os amores.

Se achardes magra a herança
em meus versos buscai
uns poucos e inábeis milagres,
palavras que acreditava inventar
e que era a mim que inventavam.

Não terei, no fim,
senão uma única morada:
a luz que nasce nos olhos teus.

Mia Couto, em “Vagas e lumes”. Lisboa: Editorial Caminho.