Chuva da tarde

Tela desbotada.
Gemidos
Duma canção quebrada.

Angústia
De todas os passos
– Perdidos.
E de todos os passos
– Achados.

Nos arvoredos
Chora adeuses de alma cativa,
Mão fugitiva,
De dedos finados.
E as gotas d’ água tombam, desprendidas
Das folhas pelo ventos sacudidas
– Como amargos e amorosos segredos…

Nada que exalte.
Tudo que submeta

Porque te espero
No silêncio e sombra da tarde morta
– Se nunca vens?
E, se viesses,
Já não serias a mesma?
Se, de tudo o que fomos,
Apenas me restaria
-Num olhar que trocássemos-
A tristíssima certeza
Da gota d’ água que tomba, desprendida
Da folha pelo vento sacudida?

Não.
Prefiro que fiques
No mundo antigo e ausente,
– Lá onde o meu pensamento te chama
E o meu coração te sente.

Alfredo de Barros, Versos de cinza, 1946

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