Mês: junho 2017

Mãe, quero ir ao passado, onde estive buscar

Mãe, quero ir ao passado, onde estive buscar 
      Os brinquedos que lá deixei, 
Não digas que a noite está fria, que faz mal o ar, 
      Mal não me farei. 
Quero ir à procura do irmão meu que perdi 
      E sou eu afinal, 
Mas aquele que brincava comigo como nunca vi 
      P’ra loucura igual. 
Quero ir, minha mãe, ao passado — só dois passos 
      Para fora da porta 
Buscar o boneco, e o persa infantil, e os □

Mãe, não me guardes os carros, é luar, vejo bem. 
      Quero ir ver se inda está 
O carro pequeno onde o deixei, se ninguém 
      O tirou de lá. 
Quero ir trazê-lo debaixo do braço, a correr, 
      Quero ir ter ao jardim, 
Mesmo que eu nunca volte, mãe, e ir seja morrer 
      Deixa-me ir lá ao fim. 
Quem compreende o que eu sinto? O carro e o boneco 
      Eram meus, estão ali. 
Não queiras que eu não vá. Vê se os □ ou os perco

Mãe, é tão triste dormir a pensar e a ter pena! 
      Mãe, não to sei dizer… 
Deixa que eu vá, deixa que eu volte à criança pequena!
      E possa esquecer.

15 – 9 – 1934 

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Mangas verdes com sal

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.
Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.
Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida.

Rui Knopfli

Epitáfio

O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração.

Thiago de Mello In Faz escuro mas eu canto, 1966

Asas e azares

Voar com asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo do meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não dói.

Paulo Leminski

Eu tive um pássaro de prata

Eu tive um pássaro de prata…
Seguia rotas sem fim
– sem dar conta das horas, das distâncias –
para longe de mim.
Um dia veio a tempestade…
O pássaro quebrou as suas asas de prata
e capotou!
Sofri!
Eu sei lá se sofri,
vendo no chão toda a engrenagem
que a moldara
e a fuselagem
deselegante, como uma lesma, indiferente, ao sol.
E nem assim
deixou de erguer-se ao céu o pássaro de prata
tentando novas rotas,
voando sempre, e só, para dentro de mim…

Álvaro Feijó In Os Poemas de Álvaro Feijó, 1941, obra póstuma.

Sede

 

Nesta vidraça
regressa a infância
com seus reflexos
de cores pálidas.
Refractada luz
que não lembro.
Invento-a e desfaço-a
antes que me fira
na mais funda sede
de outra vida,
de outro mundo,
de outra coisa.
 
João José Cochofel in “Uma Rosa no Tempo”, 1968

Uma nesga de rio

Uma nesga de rio
outra nesga de azul
num céu azul de algodão.
 
A meio, um arco-íris
tão convicto de bonança
que as árvores apresentam pressurosas
o coreto dos pássaros e a fanfarra das flores.

 

João José Cochofel in “Quatro Andamentos”, 1964