Mês: julho 2017

Eis-me aqui

Estou aqui
a contar-te dos caminhos que percorro
velhos   estreitos   esventrados
caminhos de sulcos e de cabras onde
nossos avós colheram pão de côdea dura
estou aqui
a contar-te dos cheiros doces e acres
dos frutos tropicais
cheiros que se foram confundindo no sangue
que se afundou em docas e mares mas emergiu
mais vermelho que o chão da nossa terra
estou aqui inteira   viva   irrequieta como pássaro
que acasala no equilíbrio de um ramo
e como tu quero ferir meus pés
no lençol de pedras que atapeta o ôbô
inundar de algas azuis o corpo reflectido
no espelho das calemas
estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres
e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo

estou aqui como tu
borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas
e morre a ouvir histórias de um país calcinado.

Olinda Beja in Água Crioula

(EXCURSÃO PELO RIO CONGO EXCURSÃO PELA MEMÓRIA)

(A Eugénia Neto
e Luandino Vieira)

Nesta hora do pôr-do-sol
sobre o barco e águas
corredoras
algas caladas
aves acocoradas,

eu sei simplesmente
que sou um dos convivas
a bordo da alegria de Maio de 1987
pelos mistérios do rio Congo.

na memória desenha-se minha gente:
crianças guardando a fome, a sede, o luto,
por detrás do amargo sorriso.

a bordo desta efémera alegria
sei apenas que sou um dos convivas
de entre os que trazem na lembrança
seus sonhos, suas bandeiras
suas chagas abertas ao tempo.

agora que importa falar do vento,
das águas, do sol, dos pássaros?
ignoro a natureza das coisas.
falo apenas desta dor que me acompanha,
do sangue que me nasce do Índico
e desagua no meu coração.

o barco e as águas correm…
segredo é a mensagem
que elas me anunciam.
meu rosto denuncia certa impaciência
e meus olhos trémulos nada ocultam
e nada dizem, apenas calam

(agora que é noite
há menos dureza na lembrança
somente alguns versos
e alguns rostos que contemplei.)

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

No poema

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto

Sophia de Mello Breyner Andresen In No mar novo, 1958

Um simples pensamento

É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser 
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica comigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.

Eugénio de Andrade In Os Sulcos da Sede, 2001